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05 maio 2005

Desconstruindo Ratzinger

Parece que foi ontem. Mas aconteceu na terça-feira, dia 19 de abril, quase 14 horas. A rede Globo interrompeu a edição normal do jornal Hoje para transmitir direto do Vaticano, onde os cardeais estavam reunidos no conclave para escolher o sucessor de João Paulo II.
Percebi que havia muita expectativa e fumaça branca no ar, sinal de que um novo pontífice tinha sido escolhido. Não deu outra, o cardeal chileno Mendez Medina ocupou a tribuna para proferir, em latim, a frase tão esperada: Habemus Papam!

Para suceder o papa polonês foi anunciado o alemão Joseph Ratzinger, cardeal bastante conhecido por vários teólogos e especialistas em assuntos católicos. Ratzinger recebeu a cátedra com o nome de Bento XVI. Fim da expectativa para muitos católicos. Fim do conclave iniciado no dia anterior.
Segundo a imprensa, não houve surpresa na eleição do cardeal nascido na Baviera e, por causa de sua defesa da ortodoxia católica, conhecido como o 'Rothweiller do Vaticano'. Foi publicado que ele era o grande favorito para a eleição; que representava a continuidade do pontificado de João Paulo II, principalmente, no campo da moral e da ética.

Os fiéis presentes na praça de São Pedro vibraram com o anúncio feito pelo cardeal Mendez Medina. Mas será que a alegria sentida na praça foi compartilhada ao redor do mundo? A simpatia, como se sabe, nunca foi o forte do cardeal Ratzinger. Ao contrário, sua atuação à frente da Congregação para a Propagação da Fé (o antigo Santo Ofício, organismo famoso por causa da inquisição acontecida na idade média) sempre causou polêmica e ressentimento. Sua figura sempre inspirou respeito, cautela e desconfiança.

Mas muita coisa mudou. Ratzinger virou papa. Em lugar do decano dos cardeais, o mundo terá que conviver com o herdeiro d difícil tarefa de suceder João Paulo II, o papa peregrino, que conquistou carinho e reverência em todos os cantos do planeta. O que terá passado na cabeça do cardeal alemão no momento em que sua eleição foi confirmada no conclave?

Difícil responder. Acredito que, de certo modo, a vida de Ratzinger, anterior à sua eleição, terá que desaparecer. Como cardeal de influência na Cúria, ele tomou atitudes e fez afiramações que irritaram diversos grupos de católicos, de cristãos ecumênicos, de não cristãos, de feministas, de ativistas das minorias sexuais e assim por diante. Como cardeal ele podia comprar várias brigas. Talvez isto fizesse parte das atribuições do cargo que exercia.

Contudo a coisa mudou. Agora ele é o papa, o pai do povo católico. Uma coisa é brigar com metade dos católicos. Outra é ser artífice da unidade deste grande povo. Se antes, Ratzinger podia esbravejar contra o mundo contemporâneo, Bento XVI não pode separar o rebanho.

Parece que ele entendeu isto. Tanto é que, em seus pronunciamentos, tem defendido a maior aproximação dos católicos com os demais cristãos; também frisou a importância do trabalho dos teólogos. Na cerimônia de sua entronização, o novo pontífice falou de como é importante o diálogo com as grandes religiões e, no último primeiro de maio defendeu a inserção dos jovens no mercado de trabalho. Enfim, o papa assumiu posições que poucas pessoas imaginariam sair da boca de Ratzinger. O que mudou afinal?

Antes de tentar responder, me permito fazer uma comparação banal. Considerando o item carisma, João Paulo II era uma pessoa inconteste. Assim também é o presidente Lula. Porém o mesmo não se pode dizer de Ratzinger e de José Dirceu. Os dois últimos são homens de gabinete, das conversas reservadas, do uso da articulação política como arte, etc; que não se sentem bem quando estão no meio da multidão. No caso de Dirceu, com exceção do mandato para deputado federal, ele nunca foi o tipo de político que cativa o eleitorado.

Creio que já deu para perceber aonde quero chegar com a explanação do parágrafo anterior. Imagine se Lula, por algum motivo, tivesse que abandonar o posto de estrela maior do Partido dos trabalhadores (PT) e fosse substituído por José Dirceu. Será que este daria conta do recado? Será que a massa petista daria para ele a consideração dispensada ao líder metalúrgico? Sinceramente, duvido que ele seria vitorioso na missão.

É mais ou menos dessa forma que me parece que foi pintado o quadro da sucessão papal. Será que o sucessor alemão conseguirá dar continuidade á obra do seu antecessor? Ou será que sucumbirá ao carisma de Woytila? Difícil saber. Só o tempo dirá!

Como sou católico, vou rezar para que o pontificado de Ratzinger seja conhecido como um marco positivo na história da igreja católica em sua relação com a catolicidade, com as igrejas cristãs, com as grandes religiões e com as situações vindas do mundo contemporâneo. É verdade que a atuação anterior do atual papa não serve como estímulo para este tipo de pensamento. mas não se pode ficar olhando toda hora para o passado e, além disto, a esperança é uma característica tipicamente cristã.
Aroldo José Marinho

2 comentários:

Elisabete de Mello & Flexinha, A Gaby Duff Lancer disse...

Caminhando pelas ruas centrais de São Paulo, sem nenhum planejamento, encontrei Bento XVI em uma esquina.

No Papamóvel, me acenou, disse adeus...

Anos antes, na mesma rua, o acaso me fez encontrar Suplicy, uma estrela do PT.

Harold disse...

Sweet Bete!
Esses encontros não programaos são sempre interessantes. Deve haver algo de grandioso neles.
Beijos!!!