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20 abril 2008

A imprensa informa ou deforma?

Como a maioria das pessoas deste país tenho acompanhado, há duas semanas, as notícias sobre a morte da menina Isabela Nardoni, de cinco anos de idade, cujo corpo foi atirado do sexto andar de um prédio residencial em São Paulo. Como a maioria das pessoas, fiquei chateado e chocado com tal notícia. Tudo nela é horrível: a morte, as circunstâncias da morte, a idade da pessoa morta e assim por diante.
A imprensa contou que o pai da garota e a esposa deste estavam na cena do crime. Só este fato já serviu como motivo para que os Nardoni tenham sido citados como assassinos da criança. Nada contra o trabalho da imprensa. Jornalistas têm a missão de bem informar à sociedade onde eles estão inseridos. Porém quero discordar da forma como está sendo feita a cobertura jornalística.
Lamento que as cobertura feita por grande parte dos meios de comunicação tenha assumido um caráter sensacionalista. Volta e meia, fico sabendo que as televisões exploram para aumentarem o ibope de suas programações; que as rádios promovem debates com juristas e outros profissionais com a mesma intenção televisiva; que os jornais carregam as tintas nos tons dramáticos. Parece que, neste momento, o jornal Notícias Populares (que, segundo dizem, se espremer, sai sangue) fez escola. Até no Orkut há exploração do fato. Fico com a impressão de que palavras como ética e imparcialidade perderam sentido.
Esse tipo de cobertura faz um mal imenso à opinião pública. Influenciada pela mídia, ela se põe a assumir o papel destinado à justiça. De repente, as pessoas começaram a julgar e condenar previamente o casal Nardoni. Eles só não foram linchados, numa das idas à delegacia, porque havia um forte aparato policial dando proteção.
A mídia, salvo alguns profissionais, tem se portado de forma irresponsável neste caso. A cobertura sensacionalista mexe com o emocional das pessoas, principalmente, daquelas que não têm uma boa formação escolar/cultural e que ficam a mercê das novelas, dos programas de auditórios dominicais, das igrejas de bispos de caráter duvidoso e assim por diante. Parece que imprensa esqueceu estas características do povo ou, por isso mesmo, abraçou o sensacionalismo como verdade absoluta.
Fico com a triste impressão de que a imprensa, quem cabe o papel de bem informar, está se saindo muito bem na tarefa de deformar às mentes dos nossos cidadãos. Será que isto também não pode ser chamado de crime?
Há indícios de que o pai e a madrasta de Isabela sejam os autores do assassinato. Os peritos da polícia concluiram o trabalhos de análise do material encontrado na cena do crime. Porém não cabe à imprensa nem às pessoas que dela recebem notícias julgar os réus. Se cabe culpa ao casal Nardoni, que esta seja declarada num tribunal. Se eles são inocentes, que sejam declarados pelo veredito de um juiz após ouvir a promotoria, a defesa e a decisão dos jurados.
Por causa de minha formação cristã/humanista, lamento a perda de um ser humano tão jovem e gracioso. Torço para que este tipo de situação não venha mais ocorrer. Que as crianças deste país tenham respeitados o sagrado direito de serem felizes. Que a sociedade saiba pautar sua conduta nos ideais de justiça, ética e respeito ao ser humano.
Aroldo José Marinho

2 comentários:

Ivan Daniel disse...

Não cabe a nós, cidadãos, julgar e condenar quem comete atos ilícitos, é verdade. O problema é que existe muita gente que tem a mania de não se contentar em simplesmente fazer um juízo particular sobre fatos de grande repercussão. Os meios de comunicação em massa, principalmente os voltados às classes média e baixa, contribuem bastante pra essas vontades individuais de tornar público os juízos particulares. Abusam demais da emotividade do brasileiro. É uma técnica 'jornalística' sem nenhuma ética profissional, na minha opinião.

Harold disse...

Você tem razão Daniel. Não há nenhuma ética profissional na forma como a imprensa trata o assunto Isabela Nardoni.
Lamento que este tipo de imprensa seja do nosso país.
Obrigado por seu comentário.
Um abraço!