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31 março 2010

Maria Gadú

Segue  texto de Izabel Toscano. Foi publicado, originalmente,  na edição de  29/03 do jornal Correio Braziliense, referente ao show de Maria Gadú (foto) em Brasília no final de semana.


 


“Linda”, “maravilhosa”, “eu te amo”, “perfeita”, “me leva pra              casa”... Gritos histéricos de meninas com idade entre 15 e 20 anos tomavam o teatro nos curtos intervalos entre as músicas. No banquinho, com violão em mãos, uma jovem com jeito de moleque — calça saruel, tênis, camiseta e cabelos curtos espetados — contornava a timidez pedindo ajuda à mãe que a assistia da plateia. “Mãe, olha isso...”, brincava Maria Gadú, arrancando gargalhadas. 

O primeiro show da cantora de 23 anos na cidade, em duas sessões, na sexta e no sábado, no Teatro Oi Brasília, durou exatamente duas horas. Tempo suficiente para que a jovem impressionasse pelas composições e arranjos. Matou a curiosidade tanto de gente que a conhece pela canção Shimbalaiê, da trilha da novela Viver a vida, quanto de quem já tinha intimidade com o álbum de estreia. 

“Descobri Gadú na internet e me apaixonei. Ela segue a linha da MPB e eu já gostava de cantoras como Ana Carolina. Mas não gosto tanto de Shimbalaiê como a maioria. Prefiro outras músicas, como Altar particular, porque tem letras que me prendem”, conta a estudante Michelle Elias, 18 anos, e membro do fã-clube Bela Flor. 

Nas cadeiras, a plateia era formada, sobretudo, por mulheres (a maioria tão jovem quanto Gadú). Mas era um público feminino diverso. Algumas de salto agulha e vestido com brilho; outras de calça jeans e tênis, à la Gadú. “Admiro a personalidade, a humildade. Ela assume o jeito dela na maneira de se vestir. Eu não ligo se ela se veste como menino ou não. O que me importa é que ela canta com emoção, com o coração”, confessa a estudante Renata Menezes, 17 anos, superproduzida e no salto alto. 

De unânime entre os fãs de Gadú apenas os elogios. A voz de timbre grave é, segundo parte dos admiradores, o que a alçou a revelação instantânea da nova geração da música brasileira. “A voz dela é única. É doce e forte ao mesmo tempo. Ela sabe deixar ainda mais bonita com as letras que compõe. É romântica sem ser comum”, avalia o estudante Rogério Santos, 20 anos. 

Com um singelo boa noite, Gadú subiu ao palco do Teatro Oi Brasília. Daí para frente, concentrou-se no repertório e resistiu delicadamente aos fãs que imploravam (e gritavam): “Fala mais!”. Criou-se um contraste. Ela, tímida; o público, eufórico. “Daqui a pouco, vocês vão pedir o hino (nacional). Vanusa é quem canta o hino”, soltou às risadas, referindo-se ao descompasso musical provocado pela cantora, ícone da Jovem Guarda, durante cerimônia pública. 

A maior parte da plateia, sem perder o fôlego, cantava em coro trechos das canções do álbum de estreia de Maria Gadú — lançado há apenas oito meses. Na sua timidez, junto com a maestria com que canta e toca, Maria Gadú acaba “trocando ideia” com o espectador a seu modo. “Tenho intimidade com o meu público talvez por sermos de idades próximas. Meus fãs são jovens, até crianças. Mas a minha função é cantar, tenho a proximidade que devo ter com eles”, destaca a cantora, em entrevista, antes do show. 

Quando se viu, a apresentação havia se transformado numa grande sala com amigos íntimos. Depois de interpretar canções como Encontro, Bela flor, Shimbalaiê (que ela compôs aos 10 anos), a banda a deixou sozinha no palco. Com voz e violão, como começou a carreira em bares do Rio, Gadú impressionou com a versão de Lanterna dos afogados e composições do repertório de Chico Buarque, de Noel Rosa e de Alanis Morissete. 

O ator e músico Leandro Leo a acompanhou em seguida, como tem feito na turnê de Gadú país afora. O público voltou a se meter: “Canta Crossfox”, gritou um menino. A dupla no palco riu e desconversou. “Minhas influências são todas. Gosto de Bach a Calypso. Chimbinha toca muito na guitarra. Às vezes, dá na telha e eu toco Backstreet Boys ou Sandy & Junior, por exemplo. Acho surpreendente as pessoas estranharem isso. São artistas da minha geração”, conta Gadú. 

Em homenagem ao aniversário de 50 anos de Renato Russo, completados no sábado, 27 de março, Gadú ressaltou: “Não sei se comemoramos ou choramos a perda”. Ela e Leandro Leo emocionaram a todos ao interpretar Hoje a noite não tem luar. 

Antes de se despedir, Gadú cantou Ne me quitte pas, uma das mais esperadas. “É a música que mais amo. Até estou aprendendo francês por causa dela. Apesar de ser uma música antiga, com a Maria Gadú cantando, ficou linda”, derrama-se a estudante Júlia de Soares Lima, de 15 anos. No bis, com Laranja, a cantora fez a plateia quebrar o protocolo e espremer-se em frente ao palco. E o show, que misturou melodias, solos de guitarras, rock e blues, virou festa. 

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