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03 dezembro 2010

Reflexões sobre uma gula

A vida de professor universitário tem seus momento de picos. Um deles, é o que estou vivendo. Corrigir trabalhos e provas. Preparar provas de segunda chamada para alguns faltosos. Lançar notas, definir quem serão os alunos da recuperação e o que mais ocorrer. Desnecessário explicar que, por isso, o tempo para fazer outras coisas, como a atualização diária do blog, ficam prejudicadas.

O que fazer para que os leitores e as leitoras não percam a simpatia por este espaço? O jeito é pegar alguma postagem emprestada. Então fui à caça. Graças a Deus consegui logo na primeira tentativa. No blog de Ricardo Kotscho encontrei este texto. Gostaria de tê-lo escrito. Espero que vocês também gostem.

Bom final de semana!
Harold


REFLEXÕES SOBRE A GULA

RETIRINHO/Dezembro de 2010
Ricardo Kotscho

Certa vez, uns trinta anos atrás, fiz uma reportagem para o Estadão sobre as mais variadas causas de câncer. Entrevistei médicos, pesquisadores e pacientes, para chegar à conclusão de que praticamente tudo causava câncer. O título só poderia ser mais ou menos este: “Cuidado! Viver dá câncer”.

Desde pequeno, a gente costuma ouvir aquela filosofia segundo a qual “o que não mata engorda”. Ou seja, você pode escolher entre ser obeso ou morrer, embora os médicos e os religiosos nos digam que a obesidade mata.

Uma rápida pesquisa no Dr. Google nos mostra que o que era um problema de saúde para os antigos gregos _ a depressão, por exemplo _ foi transformado em pecado pelos grandes pensadores da Igreja Católica.

Assim como acontece com as causas do câncer, se nós formos levar a ferro e fogo o que está escrito nos textos bíblicos e nas suas interpretações posteriores, vamos ver que tudo o que é bom e dá prazer ameaça a nossa saúde, abala o espírito, é pecado e pode matar. Por isso, devemos viver em permanente sacrifício, como nos ensinam os especialistas do pecado da Gula.

Dos antigos aos mais recentes textos sobre o assunto, as ameaças são assustadoras.

Em Provérbios 23:20-21 somos advertidos: “Não estejas entre os bebedores de vinho nem entre os comilões de carne. Porque o beberrão e o comilão caem em pobreza; e a sonolência vestirá de trapos o homem”.

Mais adiante, Provérbios 23:2 proclama solenemente: “Mete uma faca à tua garganta, se és homem glutão”.

Com palavras mais amenas, mas no mesmo sentido, o professor Felipe Aquino, uma das estrelas carismáticas da moda que se apresentam na TV Canção Nova, escreveu em março do ano passado:

“Não é possível querer levar uma vida pura sem sacrifício. O corpo foi nos dado para servir e não para gozar; o prazer egoísta passa e deixa gosto de morte”.

De onde ele tirou isso? Sei lá. Só sei que não sou candidato a santo nem hipócrita e não concordo que a vida tenha que ser um permanente sacrifício. Ao contrário, gostaria que ela fosse sempre uma festa, uma celebração, um grande prazer, uma permanente alegria por estar vivo.

Claro que para tudo há limites, e o melhor conselheiro nestes casos é o bom senso _ e não o medo, a ameaça, o castigo e a morte acenando a cada esquina, que é o que se depreende destes textos.

Não por acaso, certamente, coube a mim o tema da Gula neste encontro e, como vocês sabem, posso falar por experiência própria. Sou de uma família em que todo mundo gosta de comer e de fazer comida. Da minha infância, lembro-me da família reunida em torno da mesa em longos almoços e jantares, as pessoas falando alto, rindo, comendo e bebendo.

Mesmo assim, eu era um sujeito magro, quase esquelético, e assim me mantive até perto dos 40 anos, quando arrebentei o joelho, depois de já ter quebrado o pé e várias costelas, e parei de jogar futebol. Não passei a comer e beber nem mais nem menos, mas aos poucos fui ficando mais robusto. Quem olha pra mim hoje, a julgar pelo que nos ensinam os pensadores católicos e os médicos fundamentalistas, vai achar que sou um baita pecador de alto risco, glutão e beberrão, um sujeito que foi dominado pelo vício e não faz mais nada na vida.

Não é bem assim. Trabalho cada vez mais, me meto num monte de compromissos remunerados ou não, cumpro todos, ajudo os outros, mas no fim do serviço, ao cair da tarde, quero ter o direito de ir para o bar encontrar os amigos.

Ou nós viemos ao mundo só a trabalho, só para sofrer e pagar os pecados? Sou gordo, mas sou feliz…

Já me proibiram de fumar, depois de exatos 50 anos tendo o cigarro por inseparável companheiro na hora de escrever, o que está sendo bem difícil. Até agora, o único efeito foi ganhar mais alguns quilos. Se me proibirem também de beber e comer o que gosto, que diabos, de que adianta ficar velho antes de morrer?

Por falar em diabo, criaram até um demônio próprio para a Gula. Em 1589, sim, 1589 _ e às vezes penso que a nossa Igreja ainda vive naquela época _ Peter Binsfeld comparou cada um dos pecados capitais com seus respectivos demônios, seguindo os significados mais usados. De acordo com Binsfeld´s Classification of Demons, a Gula é representada pelo Belzebu. Que medo!

Tem remédio para isso, além de fechar a boca e jejuar para o resto da vida deitado numa cama de pregos? Claro, pesquisando bem, para tudo tem remédio. Neste caso, para o pecado capital da Gula recomenda-se a velha e boa Temperança, uma das quatro virtudes cardinais (nunca tinha ouvido falar nisso…).

De acordo com as melhores doutrinas da Igreja Católica, temperança significa equilibrar, colocar sob limites, “moderar a atracção dos prazeres, assegurar o domínio da vontade sobre os instintos e proporcionar o equilíbrio no uso dos bens criados” (CCIC, nº. 383).

Escrevendo aos filipenses, São Paulo se refere àqueles cujo “deus é o ventre” (cf. Fil. 3,19), isto é, o alimento. “Se a Igreja nos aponta a gula como um vício capital é porque ela gera outros males: preguiça, comodismo, paixões, doenças, etc…”.

O perigo, certamente, está neste “etc…”. O que será?

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