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01 julho 2011

Ouvidos de orvalho

O escritor gaúcho Fabrício Carpinejar (foto) é, sem dúvida, nenhuma, uma figura. Foi essa impressão que ele me passou nas duas vezes em que pude vê-lo no Programa do Jô. Não há como enquadrá-lo no time dos caras normais. Pelo menos, dentro do ponto de vista burguês. Ele está fora das convenções sociais aceitáveis. Que digam as unhas da sua mão esquerda.

Esse poeta, nascido em Caxias do Sul, tem berço literário. É filho dos poetas Carlos Nejar e Maria Carpi. Aqui se explica a origem do seu nome originalíssimo. Seu livro de estréia, As solas do sol, foi lançado em 1998.

Além do ofício literário, esse mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), trabalha como jornalista.  Desde maio, é colunista do jornal Zero Hora, de Porto Alegre, herdeiro da vaga antes ocupada por Moacyr Scliar (a quem tive a honra de conhecer).

O texto que segue abaixo é aprte integrante livro Biografia de uma árvore, lançado pela editorda Betrand Brasil em 2002. 



Harold

Ouvidos de orvalho

Fabrício Carpinejar



(...) Somos fumaça e cera,


limo e telha,


névoa e leme.


O inverno nos inventou.


 Não importa se te escuto




ou se explodes meus ouvidos de orvalho:


morre aquilo que não posso conversar?




Ficarei isolado e reduzido,


uma fotografia esvaziada de datas.


Os familiares tentarão decifrar quem fui


e o que prosperou do legado.


Haverei de ser um estranho no retrato


de olhos vivos em papel velho.




Escrevo para ser reescrito.


Ando no armazém da neblina, tenso,


sob ameaça do sol.


Masco folhas, provando o ar, a terra lavada.


Depois de morto, tudo pode ser lido. (...)

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