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01 julho 2011

No lugar do oba, oba, serenidade

Quando estou sem assunto para escrever no blog, costumo recorrer à ajuda externa e peço para uma ou outra pessoa sugerir algum tema. Desta vez, ouvi duas. Uma sugeriu que eu escrevesse sobre Kim Petras (foto). Outra, me propôs tematizar Carla Díaz. Sugestões ouvidas e aceitas, botei a cabeça para funcionar. Nesta postagem, escreverei sobre Petras. Noutro momento, me ocuparei com Díaz.

Aceitei escrever mas tive vergonha de parecer um sujeito desatualizado. Por isso, não perguntei para quem sugeriu o tema nada sobre Kim Petras.  Vai que todo mundo sabia quem é a pessoa, menos eu. O jeito foi recorrer a um famoso site de busca.

Escrevi lá o nome de Petras e, junto com a foto que ilustra esta postagem, um monte de informações vieram. Fiquei sabendo que Kim Petras, de 18 anos, é uma cantora da cena pop alemã. Porém não foi por causa do talento musical que Petras ficou famosa. O motivo foi um fato que a fez merecer atençãor de boa parte do mundo não é artístico. Kim, que nasceu em 27/08/92 e recebeu o nome de Tim, aos 16 anos se tornou a pessoa mais jovem a fazer cirurgia de ressignificação sexual. Traduzindo: fez cirurgia para mudar de sexo e é o mais jovem transsexual do mundo. 

Na pesquisa que fiz percebi que muitos sites, sobretudo os especializados em fofocas ou notícias picantes, comentaram à exaustação a notícia da cirurgia de Petras. Escreveram muitas coisas, a maioria, inúteis. Porém a minha formação de psicólogo me faz ir na contra-mão das publicações sensacionalistas. Minha abordagem  enfoca a pessoa de Petras com base nas informações sobre a cirurgia, em si, e os componentes éticos nela implicados.  

O caso de Petras tem uma peculiaridade. Seus pais ao perceberem a identificação de Tim com o sexo oposto, permitiram que o menino começasse, ao 12 anos, o tratamento hormonal para alterar o sexo. E mais, ajudaram para que o filho, aos 14, conseguisse modificar seu registro civil. Juridicamente, foi nesse momento que Tim deu lugar para Kim. O passo seguinte, a cirurgia, ocorreu quando tinha 16. 

A sua situação causou um certo embaraço à justiça alemã. De acordo com a legislação do país, o tratamento hormonal só é permitido às pessoas que sejam maiores de idade. Porém Tim, na firmeza dos 12 anos, conseguiu convencer a equipe médica de que era necessário fazer a cirurgia e assumir uma nova identidade.

Parece que, no fim das contas, tudo acabou bem. Kim se sente feliz com a nova identidade, os pais também. Porém a discussão não se esgota com a felicidade geral. Olhando as coisas pelo prisma da família Petras, tudo parece tão fácil. Todavia cabe aqui fazer uma perguntas: será que submeter uma pessoa menor de idade a uma cirurgia de ressignificação sexual é um procedimento adequado? 

A reposta é delicada. Não dá para padronizá-la. É verdade que a adolescência é um período de descobertas sociais, algumas são firmes e límpidas, outras, cheias de hesitações. Também vale lembrar que, há situações nas quais as decisões tomadas pelos adolescentes envolvem mais a emocionalidade do que a racionalidade. Será que o episódio de Petras pode ser enquadrado neste contexto?

Do ponto de vista da Psicologia, não é sensato submeter adolecentes à decisões tão definitivas. Os médicos que cuidaram de Petras foram convencidos por um menino de 12 anos. Talvez este seja um caso particularíssimo. Segundo eles, a pessoa atendida tinha uma determinação evidente. É uma exceção. Mas a atuação da ciência deve ser pautada pela observância da regra e não pela exceção. Não se pode oferecer um serviço para a sociedade baseado somente em situações particularíssimas.

Se o caso de Kim Petras tivesse acontecido no Brasil, certamente, teria outro desfecho. A lei não permite que a cirurgia de ressignificação sexual seja realizada em pessoas que tenham menos de 21 anos. Parece que assim se consegue um grau razoável de entendimento para que seja possível ajudar a pessoa que requer a cirurgia, através do acompanhamento de psicólogos, médicos e outros profissionais de saúde, a tomar uma decisão que, posteriormente, não seja motivo para frustração ou arrependimento.

Este tema gera um amplo debate, o que, ao meu ver,  é positivo. Pontos de vistas favoráveis ou contrários são sempre bem vindos, desde quem expressem abordagens tranquilas e responsáveis, desprovidas de sensacionalismo. Em vez de prestar atenção nas especulações bobas, melhor enfatizar as opiniões vindas da ciência ou da área jurídica. No lugar das insinuações que beiram a pornografia, privilegiar as reflexões que resguardam a dignidade humana.

Se for assim, o caso Kim Petras será uma grande contribuição para o debate que se faz sobre as questões de gênero. Então, os argumentos e as atitudes serão recebidos com a tranquilidade que deveria fazer parte de tudo que diz respeito à dignidade humana. 

Aroldo José Marinho    

Um comentário:

kennya monassa disse...

querido, passei pra dar um Hello...Abraços,Kennya.