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10 julho 2014

O adeus de Sampaio

A notícia que mais repercutiu ontem no país foi a derrota da seleção brasileira para a alemã numa semifinal da copa do mundo. Contudo, um fato relevante para a vida política, ocorrido no mesmo dia, foi divulgado quase que de forma oculta. Me refiro ao falecimento de Plínio de Arruda Sampaio (foto), advogado e ex-deputado federal paulista, filiado ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). 

Infelizmente, não tenho como julgar espantoso se, boa parte dos leitores perguntar quem foi este homem e o que fez para merecer minha citação. Antes de informar mais sobre Sampaio, é útil fazer uma observação sobre os políticos brasileiros: há aqueles que estão sempre na mídia sem que suas atuações agreguem algum valor à vida nacional e há aqueles que, com heróicas e anônimas atuações, contribuem para que haja a ampliação dos direitos sociais. Plínio de Arruda Sampaio pertence a esta categoria.

Paulista nascido na capital, em 1930, Sampaio desenvolveu parte de seu ativismo político na Juventude Universitária Católica, na Ação Católica Brasileira e na Ação Popular. Sua militância conjugava o catolicismo engajado socialmente com a visão política de esquerda, preocupando-se com a desigualdade decorrente da ganância desenfreada, fundada no capital que beneficia pouquíssimas pessoas. 

Advogado formado, em 1954, pela Universidade de São Paulo (USP). Entrou para a administração pública em 1958, como membro da equipe do governador Carvalho Pinto. Em 1961, colaborou como secretário na administração do prefeito Prestes Maia. Tornou-se deputado federal, em 1962, do Partido Democrata Cristão (PDC), sendo criador da Comissão Especial de Reforma Agrária, desnecessário informar que sua atuação combativa incomodou grupos conservadores nacionais como os grandes latifundiários. Este foi um dos motivos para a inclusão de seu nome na lista dos 100 primeiros cassados pelo golpe militar de 1964. Começou sua vida de exilado no Chile e nos Estados Unidos, antes de retornar ao Brasil, em 1976, e atuar no movimento pela redemocratização do país.

Em 1980, participou da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), sendo autor do estatuto partidário e um dos idealizadores dos núcleos de base. Suplente do deputado Eduardo Suplicy, assumiu assento na Câmara dos Deputados quando o titular candidatou-se para disputar a prefeitura paulistana. Também foi eleito deputado federal constituinte, em 1986, com 63.899 votos, o segundo mais votado do partido, superado apenas por Luiz Inácio Lula da Silva. Sua proposta de acabar com os latifúndios através de um modelo constitucional de reforma agrária incomodou os grupos conservadores participantes da Constituinte.

Militante ativo do PT, acompanhou, em 2003, a travessia que o partido fez da oposição para o governo federal, no primeiro mandato do presidente Lula. Contudo, desfiliou-se do partido, em 2005, por não concordar com a nova orientação dada pela liderança pela liderança petista. Optou por ingressar no PSOL, concorrendo, em 2006, ao governo de São Paulo, recebendo cerca de 450 mil votos.

A biografia de Sampaio é repleta de atitudes que mostram o seu amor pelo povo deste país. Amor que dosava, na justa medida, as posições socialistas  com um catolicismo preocupado com a sociedade, coerente com a visão transformadora do Evangelho. Esta postura me parece ser relevante pois, infelizmente, os grupos que pregam uma militância religiosa distanciada do social ganharam maior espaço na mídia, contribuindo para a alienação das pessoas de no Brasil. Espero que quem ler este texto sinta vontade de ler seus livros, de saber mais sobre suas idéias.  

Por que é importante registrar sua trajetória? A política brasileira sofre pela falta de pessoas que sejam referências éticas na política nacional. Pessoas que encarnem ideais e sejam coerentes com estes, tanto no campo da direita quanto entre os ativistas de esquerda. O que se percebe de um lado, a movimentação de reacionários arrotando discursos fascistas travestidos de ética. Do outro, tem gente que posa de líder esquerdista, porém suas atitudes não parecem diferir do que nos é mostrado pelos defensores da economia de mercado.

Neste contexto, a morte de Sampaio é preocupante. Ele foi um político que tinha uma atuação que servia como antídoto aos líderes que, em nome da praticidade situacional, banalizaram suas ações e as de seus partidos. Sua atuação política era uma mescla responsável do socialismo com valores cristãos. Nunca demonstrou apegos a cargos ou posições de influência, afastando-se dos grupos quando percebia que este tornavam-se contraditórios ao ideário defendido.

Então o Brasil tem motivos para lamentar a perda deste patriota, que sempre defendeu os valores democráticos, comprometido com iniciativas que possibilitem maior acesso de trabalhadores às oportunidades reais de crescimento. Que o seu exemplo de luta possam inspirar novos lutadores.

Valeu Plínio!


Aroldo José Marinho 

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