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02 abril 2009

Cinco perguntas para... Emílio Pacheco

Saúdo vocês leitores e as leitoras do blog. Hoje apresento lhes a figura simpática e inteligente de Emílio Pacheco, o sujeito da foto ao lado. Gaúcho de Porto Alegre, jornalista por formação e bancário por imposição da vida, Emílio é uma dessas pessoas muito antenadas nas notícias sobre o meio cultural gaúcho. Quem quiser saber sobre os lances culturais que acontecem naquelas paragens, necessariamente, precisa fazer uma visita ao blog

(www.emiliopacheco.blogspot.com) por ele editado.

Além de sua atuação no blog, Emílio também participa do Orkut. Muitas pessoas visitam sua página para lhe fazer questionamentos ou, simplesmente, para agradecer a acolhida que o colorado ser dedica a todos que passam naquele espaço. Prova da grande consideração a ele dedicada é a comunidade que tem o seu nome (http://www.orkut.com.br/Community.aspx?cmm=66351005), criada por Andréa Steiner.

Como sempre, Emílio usou de solicitude e paciência para responder as perguntas por mim formuladas e que seguem abaixo. Boa leitura!




Aroldo (A): Como você se define em termos políticos?

Emílio (E): Boa pergunta. Já escrevi até um texto sobre isso no meu blog ("Mistérios da Política"). Lá eu tento apresentar uma análise mais aprofundada do meu posicionamento político. Há alguns anos eu nutro uma simpatia pelo PT, mas sem radicalismos e sem compromisso perpétuo. Na última eleição para Prefeito de Porto Alegre, por exemplo, votei em Fogaça (meus amigos petistas vão querer meu fígado se lerem isto). Eu admiro o PT pelo que representou em termos de coerência, persistência e luta contra as injustiças sociais, mas prefiro que essa admiração continue livre e descompromissada. Acima de tudo, o eleitor brasileiro tem que aprender a viver numa democracia e aceitar ser voto vencido, quando for o caso. Eu, por exemplo, nunca votei em Fernando Henrique e mesmo assim acho que ele não foi um mau Presidente. Pelo menos, foi melhor do que eu esperava.


A: O que deixa indignado o cidadão Emílio?

E: Seria mais fácil perguntar o que não me deixa indignado. Certa vez minha irmã observou o quanto eu uso a palavra "irritado" no meu blog. Fico indignado com interpretações precipitadas, pessoas que me prejulgam com base em suas visões engessadas do ser humano, gente cética, gente que acredita em tudo (principalmente as mentiras que circulam por e-mail), gente burra, fãs alienados que não conhecem mais nada além de seu único ídolo e gente que acha que todos têm que ser iguais e gostar de futebol, carnaval, chope e novela. Também fico indignado com a insistência dos internautas em divulgar textos falsamente atribuídos a autores famosos, em especial Mario Quintana, Luis Fernando Verissimo e Arnaldo Jabor. E mais ainda quando essa divulgação errônea ocorre em vitrines respeitadas, como o programa de Ana Maria Braga, por exemplo.


A: Para as pessoas que moram em outras regiões, algumas vezes, o Rio Grande do Sul (RS) é percebido como um canto à parte, com uma vida e cultura que lhes são próprias. Você, algumas vezes, percebe o resto do país como se estivesse distante do RS ?

E: Eu nunca percebi isso. Na verdade, o que sempre me chama a atenção são os comentários em relação ao bairrismo gaúcho. Sim, nós gaúchos temos orgulho de ser gaúchos. E até uma certa idade eu achava que isso era comum em todos os estados, que o baiano tinha orgulho de ser baiano, que o paulista tinha orgulho de ser paulista e assim por diante. As pessoas falam como se esse "orgulho gaúcho" fosse algo inusitado, de outro mundo, e eu não vejo assim. Qual o problema? Segundo depoimento do antropólogo Hermano Vianna, a atriz Regina Casé achou curioso que, sempre que um gaúcho lhe pedia um autógrafo, fazia questão de dizer: "Eu sou gaúcho!" Nós temos mesmo essa identificação forte com o nosso Estado e não vejo por que isso deva ser considerado estranho.


A: O que você no passado e que hoje, por conta do amadurecimento, faria diferente?

E: Outra boa pergunta. Não sei exatamente o que eu fiz que possa ser considerado "errado". Para certas coisas, não existe a opção "certa". Você ganha de um lado e perde do outro conforme a escolha. Em inglês tem uma expressão que define bem situações assim: "trade-off". Viajando de ônibus, você economiza dinheiro para gastar quando chegar, mas leva mais tempo e tem menos conforto. Indo de avião você chega em questão de horas, mas fica com menos dinheiro. O que vale mais a pena? Ir de avião ou de ônibus? Não existe a resposta certa. Depende de suas prioridades no momento. Já houve uma época em que eu achava que, se pudesse voltar no tempo, me dedicaria integralmente ao jornalismo. Hoje já não penso assim. Pode ser um mecanismo de defesa, mas fico feliz de conseguir conciliar minhas atividades e ainda pagar minhas contas (aí se incluindo o tratamento de um filho com necessidades especiais). Para não dizer que não existe nada que eu faria diferente, quando eu tinha 21 anos, entrei em forma e comecei a correr. Foi uma boa fase. Mas só durou alguns anos. Logo eu perdi a forma e a resistência. Ainda insisti mais um tempo, mas corri pela última vez com 35 anos. Hoje estou com 48. Então, se eu pudesse voltar no tempo, talvez procurasse manter a forma, mesmo que para isso tivesse que correr mais devagar, sem tanta preocupação com desempenho. É que tem uma fase em que a gente quer "comer bem para correr melhor". Até que começam as lesões e outros problemas. De vez em quando alguém ainda me pergunta se eu não me entusiasmaria em tentar emagrecer e voltar a correr. Tentar emagrecer, até seria recomendável. Voltar a correr é mais difícil, pois a idade não diminui junto com o peso. Mesmo que eu entrasse em forma, não teria mais a resistência dos 20 e poucos anos. Se eu tiver tempo para dar umas caminhadas, já está de bom tamanho.


A: Dá para fazer paralelo entre a atual cena musical gaúcha, de onde são egressos Cachorro Grande, com aquela dos anos 70, em que pontuava o grupo Almôndegas?

E: Os Almôndegas lançaram seu primeiro LP em 1975. Naquele tempo, não existia nem mesmo disco independente ou os chamados selos independentes, muito menos Internet, mp3, CD-R e outras facilidades que temos hoje. Pra divulgar música, tinha que tocar no rádio. Pra tocar no rádio, tinha que ter disco. Pra ter disco, tinha que ser contratado por uma gravadora do centro do país, as chamadas majors. Nesse sentido, aconteceu um movimento bonito que foi o da saudosa Rádio Continental, a 1120 (AM). Furando o esquema que eu citei acima, a Continental começou a tocar gravações feitas no próprio estúdio da emissora, com músicos locais. A gente ouvia aquelas músicas todas com entusiasmo, mas também com uma pontinha de frustração, pois nem todas se podiam comprar em disco. Então tinha que ouvir a rádio, tinha que ir nos shows... Mas o movimento foi muito forte. Cada músico contratado por uma gravadora era motivo de comemoração. Os Almôndegas fizeram sucesso regional numa época em que isso era raro na música urbana. Os gaúchos que fizeram sucesso antes deles foram todos em nível nacional, como Lupicínio Rodrigues e Elis Regina. Além dos Almôndegas, entre 75 e 76 também lançaram disco Hermes Aquino, Inconsciente Coletivo, Pentagrama e Bixo da Seda. Depois vieram Fernando Ribeiro e Berê. Posso estar esquecendo alguém, mas não eram muitos os que lançavam disco, não. Dava pra contar nos dedos. Hoje qualquer um junta dinheiro e lança mil cópias de um CD independente. Sem falar em sites como o MySpace, onde é possível fazer uma divulgação de forma simples e eficaz. A cena musical gaúcha hoje está bem mais aberta para o rock, mas isso vem desde os anos 80, a partir da divulgação feita pela Ipanema FM e os LPs "Rock Garagem" e "Rock Grande do Sul". Não conheço todas as novas bandas gaúchas, mas descobri por acaso o trabalho da Poliéster, de São Leopoldo, na Grande Porto Alegre, e gostei bastante.



3 comentários:

Armando Maynard disse...

Uma das formas de jornalismo que gosto é a entrevista. Trata-se de um modo agradável e fácil de conhecermos um pouco mais o pensamento das pessoas. Lembro quando falava aos amigos que gostava de ler a revista "Playboy", com suas longas entrevistas, faziam gozação dizendo que a comprava somente para ver as mulheres, também, é claro. Outro impresso que primava pelas entrevistas, era o semanário "O Pasquim", de saudosa memória. Caro Aroldo, o próprio Emílio Pacheco me trouxe até aquí, com a indicação feita lá em seu blog. Seu artigo sobre o polêmico, inteligente e político neófito, Clodovil, tem observações corrretas.De sua passagem pela câmara, lembro de seu primeiro pronunciamento, o qual criticou os seus colegas por não prestarem atenção ao seu discurso, pois ficavam uns coversando, outros lendo jornais, enquanto ele falava da tribuna. Aliás, aquilo alí é uma balbúrdia e um desrespeito geral, somados as peraltices, cinismos e escândalos semanais. Um abraço, Armando.

Harold disse...

Armando!
Muito obrigado por sua visita. Comentários como o seu justificam a existência deste blog.
Espero que venha outras vezes por aqui.
Grande abraço!!!

Anônimo disse...

Salve Aroldo como vai!
Mais uma bela entrevista agora com o gaucho Emílio Pacheco interessante e agradavel parabens amigo abraço do.
Celso.