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02 abril 2010

Guto Goffi

Creio que todos sabem que sou fã assumido do grupo Barão Vermelho desde os 15 anos. Tive a honra de assistir três vezes a banda. Foram shows especiais. Agora a banda curte recesso. Espero que, muito em breve, volte à ativa. Os fãs sentem saudade.

Depois deste discurso introdutório e justificatório, posto entrevista de Guto Goffi. O baterista do Barão recebeu Laura Ribeiro (do site www.escutai.com.br), no dia 01/07/05. O papo rolou na Maracatu Brasil, loja e escola especializada em instrumentos de percussão, de propriedade de Guto.  

Segue a entrevista. Feliz páscoa!
Harold


ENTREVISTA EXCLUSIVA COM GUTO GOFFI (BARÃO VERMELHO)

A Maracatu Brasil virou referência como loja e escola de bateria e percussão, mas hoje em dia também oferece cursos de outros instrumentos... 
Eu gosto muito do lance da Maracatu. Foi uma forma de pegar um pouco do dinheiro que eu ganhei com o Barão e devolver para a música mesmo. É uma coisa que me fez abrir a cabeça. A minha educação musical sempre foi ligada ao rock, aquela coisa americana, então essa abertura e descoberta da Maracatu, do lado brasileiro da música, fez bem para a minha formação e é uma coisa que eu gostaria muito de manter por 10, 20 ou até 30 anos. Mas também não quero carregar uma cruz, uma coisa que não dê certo financeiramente, só pra ter aquilo. É uma coisa que tem que se manter por si própria. Se isso acontecer, se a gente conseguir esse equilíbrio, eu quero que dure por muito tempo. 
Nós começamos com bateria e percussão, abrimos para outros instrumentos agora no segundo semestre e temos uma escola de música mesmo. É um lugar onde se privilegia o músico atuante, que sabe ensinar e ao mesmo tempo está no mercado de trabalho, gravando, acompanhando artistas e tocando na noite. Acho essa diferença fundamental para alunos que queiram se profissionalizar, pois terão a experiência do professor para orientá-los e prepará-los para o melhor e o pior. O mundo da música profissional é muito disputado e concorrido.
Eu também saí de uma escola de música, a Pró-Arte, onde eu, Maurício, Frejat e Dé estudávamos. Essa coisa do ambiente da escola de música me agrada muito. Ver grupos reunidos para tocar e trocar informações sobre música e quem sabe até formar a primeira banda, é uma coisa muito boa e que pode acontecer aqui e em todas as escolas de música.


Você pretende ampliar ainda mais esse projeto com filiais em outros estados?
 
Poderia até fazer se alguém tivesse interesse em abrir em outro lugar e se isso trouxesse dinheiro para melhorar o nosso centro. Aí eu faria numa boa! Mas, a princípio, nunca recebi nenhum convite real e a Maracatu mudou um pouco o percurso. Ela começou como loja. Eu comprava muita coisa americana. Hoje em dia não compro mais nada, só trabalho com instrumentos usados e consignados. Foi uma forma de sair um pouco dessa ciranda capitalista, de ter que pagar boleta bancária, ficar girando dinheiro. Amanhã eu tenho 15 mil de conta pra pagar, “porra, vambora, vende essa porra aí, não tá vendendo bateria não?” Uma loucura que eu passei durante uns dois, três anos e que consegui me livrar sem arranhões. É muito desesperador... Ter um negócio no Brasil é muito difícil. O governo é o único que leva dinheiro pra casa, independente de você estar fudido ou não, ele vem pegar a parte dele, então é complicado. Agora com essa abaixada de bola, a gente está trabalhando mais a parte dos cursos. O estúdio de gravação também está em grande atividade e é uma forma de tocar alguns projetos musicais usando as leis de incentivo.
No momento estou gravando um cd com o João de Aquino, um violonista de samba da escola do Baden Pawell. Ele já tocou com o Barão na faixa “Vale Quanto Pesa”, do “Álbum”, onde foi indicado pelo Peninha, que já o conhecia. Encontrei com ele seis, oito anos depois da gravação e ele disse que queria tocar comigo. Aí nós viemos pro estúdio, começamos a tocar, só violão e bateria, curtimos, e resolvemos gravar esse CD, que é comemorativo dos seus 60 anos. Esse é o primeiro CD de música brasileira em que gravei como baterista e ritmista, porque só me chamam pra tocar rock, o que eu acho um absurdo! No Brasil, gostam muito de te rotular, então esse CD com o João de Aquino vai ser importante pra quebrar esse gesso que o mercado fonográfico acaba colocando nos músicos. 


A maioria dos fãs do Barão associa a imagem de vocês ao rock’n’roll, quando, na verdade, é visível que todos têm outras preferências musicais e realizam fora da banda trabalhos distintos do rock. Fale um pouco sobre isso.  

O rock tem um defeito, ele é um estilo de música muito xiita, às vezes pra quem faz e pra quem consome também. Têm alguns segmentos muito mais fechados... É o caso do heavy metal, do hardcore, que se não é aquilo que o cara está acostumado a ouvir, o resto é uma merda, não presta. Demorei muito tempo pra entender e lutar pra quebrar isso, mas também estou na minha hora certa. 
Aprendi a tocar bateria na estrada. Estudei um pouco no início com meu primeiro mestre, Joca Moraes, que admiro e convivo até hoje, e fui pra estrada. Dei sorte de fazer parte de uma banda de sucesso, trabalhei bem pelo Brasil todo. Você cresce à vista do público. O cara te vê ali naquela semana, aí daqui a um mês ele te vê tocar de novo, e melhor que na semana passada. É muito feio um baterista chegar num lugar que está rolando só samba e não puder tocar porque não sabe tocar samba, não sabe tocar jazz ou não sabe tocar ritmos latinos... Hoje em dia eu toco de tudo, encaro qualquer um. Se o cara chegar pra mim, “quer tocar bateria e gaita?”, eu vou lá e toco. Não tem mais aquele medo, “caralho, o que eu vou tocar com esse cara? Vou me fuder!”. Consegui derrubar todos os muros de Berlim que cercavam a minha música e o meu espírito. As fronteiras sumiram e hoje eu chego e simplesmente toco.


A sua participação no Gungala é um exemplo disso?
 
Sempre que posso estou perto do Peninha! O som do Gungala é um tipo de música que não tive muito contato, a música latina, mas eu já tenho maturidade pra tocar qualquer estilo de música, então, aos poucos, vou me adaptando e aprendendo a me colocar bem nas situações musicais que vamos criando. Pra mim é bom esse exercício. É uma banda espetacular de música latina e estou muito feliz de participar. Ali está muito do Peninha, todos os arranjos e a parte de invenção e escolha do repertório são dele. 


Vocês vão lançar CD? 
 
Sugeri para ser um DVD, acho que é melhor. Parece que é o Fernando quem vai lançar pela T-REC. Sugeri lançar um DVD porque já que vai ser uma performance ao vivo, seria mais legal ter a imagem. A gente já está ensaiando aqui na Maracatu.
No Gungala está a cabeça inventiva do Peninha, aquela mistura do latino com o rock, com o hip hop... Acho que é muito importante pra ele registrar isso, para as pessoas verem de perto qual é a dele. A banda é dele, é ele quem manda. Quem está ali, está tocando pra ele e também para o público, é claro! 


Os outros músicos que tocam na banda já eram conhecidos seus?
 
Alguns deles. O Cesinha, irmão do Peninha, que é o timbaleiro, já tocou com o Barão em 1990, na turnê do “Na Calada da Noite”, e gravou o “Balada MTV”. Conhecia também o Paulinho, vocalista, que é filho do Peninha. O resto da rapaziada estou conhecendo agora.


Esse DVD ao vivo deve ser gravado onde e quando?
 
A gente deve escolher alguma casa de show do Rio para gravar. Mas isso só depois da gravação do MTV Ao Vivo do Barão, em agosto.
 

E o repertório do Gungala, como vocês escolhem?
 
É o Peninha quem escolhe, ele decide tudo. Tem as composições dele, mas tem algumas regravações, como “Comida”, dos Titãs, em versão latina. Tem também uma versão sensacional de “Manguetown”, do saudoso Chico Science e Nação Zumbi, em que o Frejat canta, que tem um arranjo muito bom com direito aos metais do Serginho Trombone. Mas também tem uma parte autoral deles, que é meio hip hop. O grupo é ótimo, tem muita força e em breve será um grande sucesso. 


Fale um pouco da sua participação no grupo de percussão Lascamão.
 
O Lascamão foi uma descoberta fantástica. Fui procurado por um percussionista baiano, o Orlando Costa, pra fazer um grupo só de tambor. Eu, como músico de rock, nunca havia encarado a bateria como “um tocador de tambor”. Sempre fui o baterista de uma banda de rock. Quando você sai da banda, você é apenas um baterista e a bateria é um conjunto de tambores, então passei a encarar de forma diferente. Quando o Orlando me chamou pra fazer um grupo só com voz e tambor, achei interessante, porque a idéia dele era misturar percussionistas de diversas áreas e fazer uma mistura inédita. 
Aí juntamos um grupo de 15 percussionistas, marcamos um ensaio aqui e fomos tocar. Mas era muita gente e com os ensaios algumas pessoas começaram a cair fora do barco. No final, ficaram seis: eu, na bateria, Robertinho Silva, que na minha opinião é o melhor baterista do Brasil, na outra batera e percussão, o Orlando Costa, o Marcos Esguleba, que toca na banda do Zeca Pagodinho, o seu Carlos Negreiros, que é um mestre do afro-brasileiro, e o Pedro Lima, que é o nosso pandeirista. A gente convocou duas pessoas pra cantar, o Mário Broder e a Analimar, filha do Martinho da Vila. Foi uma coisa impressionante gravar com esses caras, altamente feras, da elite da percussão brasileira. O desafio pra mim nisso foi que sempre fomos eu e o Peninha, e de repente eu tava tocando com mais seis percussionistas, então tive que estar bem esperto pra não me derrubar no grupo e saber dialogar com os outros instrumentos.     
Outra coisa importante foi gravar um disco independente. Saíamos do estúdio, dividíamos todas as contas por oito, pagava R$ 20,00 de estúdio, R$ 10,00 da van e R$ 10,00 da merenda coletiva. A gente fez o CD todo assim, foi uma coisa muito boa. Agora a gente está tentando negociar. O Antoine Midani, que mixou o CD primorosamente, o levou pra Europa para apresentar pra alguns selos e gravadoras de lá. Esse trabalho do Lascamão está mais para o exterior. Dentro do grupo temos vários professores, então a gente pode fazer shows e oficinas. 
No Lascamão, também achei um baú de tesouros rítmicos do Brasil. É a herança afro que os portugueses deixaram pra trás. Levaram diamante, ouro, madeira e o caralho, mas deixaram essa riqueza da percussão brasileira. É o CD mais brasileiro que já ouvi! Pega a tradição e a coloca atual e disponível até para as rádios, pois o grupo é super radiofônico.


Além de todos esses projetos é verdade que você vai lançar um CD solo?
 
Sim. Tomei vergonha na cara e coragem!


Você vai cantar ou será instrumental?

Vou cantar, é claro! Mas não quero forçar a barra. As músicas e as melodias são minhas, então tenho uma intimidade grande com o repertório. Tenho mais ou menos umas 25 músicas inéditas que foram sobrando dos discos do Barão ao longo dos anos. É bem variado, porque eu não sou um músico só de rock, isso é uma coisa que eu gostaria que as pessoas descobrissem com o CD. Tem bolero, samba-rock, baladas, roquenrou e misturas que farei dos ritmos regionais com o pop. Quero um disco de colagens em que o ouvinte possa ter intimidade com as minhas virtudes e fraquezas.
Fui criado no Andaraí, bairro em que fui morar em 1968, na área do samba. O primeiro disco que comprei com a minha grana, foi do Martinho da Vila, então eu tenho uma coisa misturada com o samba que sempre esteve oculta, que é forte em mim e que eu quero mostrar, fazer essa fusão. 
Também tem a coisa das letras, de assinar um disco inteiro. Nunca tive essa audácia e oportunidade. No Barão, acho que o disco que tem mais letra minha é o “Supermercados da Vida”. Se eu não me engano são seis músicas que eu assino. Normalmente a minha média são duas, três, nunca entrou mais do que isso, e o meu volume de composições é grande e pouco utilizado. Sou um compositor quase virgem, nunca fui gravado por ninguém de peso exceto pelo Barão Vermelho. Agora eu quero mostrar minhas vísceras e dar a minha cara à tapa.


Você pretende lançá-lo numa nova pausa do Barão?
 
Não, vou lançar assim que ficar pronto. É um projeto paralelo porque também não tenho expectativa de fazer show, não sei nem se teria coragem (risos). Quero gravar, porque estou numa idade importante. Quando você faz 40 anos, tudo que precisa fazer você vai lá e faz. A prioridade é você e o seu tempo está começando a encurtar.
Tenho que fazer esse disco pra ver qual é a minha onda. Vai ter muita coisa parecida com o Barão, tenho certeza. Sou Barão Vermelho na alma, no DNA, não tem como camuflar e nem negar isso e eu também nem quero. 
O CD vai servir também como um portfólio para as minhas composições. Espero que o Barão queira regravar todas elas.


Com que idade, como e quando você descobriu que queria ser músico?
 
Me lembro muito bem do dia em que eu, o Maurício e o Paulo Henrique (PH do Fama), que eram meus colegas de colégio, fizemos uma roda e de mãos dadas decidimos ser músicos. Ainda não sabíamos tocar, mas o nosso sonho adolescente estava perpetuado ali para sempre e aquela vontade já atravessou quase três décadas.
Comecei a gostar de shows ao vivo com 15 anos, quando fui ver Pepeu Gomes (Geração de Som) com uma amiga do colégio Jacobina. Estava no 1º ano científico. Fiquei maluco! As aulas de Matemática perderam a graça e a voz dos professores ficaram muito distantes do que eu queria... Aí minha mãe ficou puta porque eu não trabalhava, não estudava direito e queria ser músico! 
Vi o Jorginho Gomes, o Gustavo Schroeter do grupo A Cor do Som, e Moraes Moreira, na época do disco “Alto Falante”. Ia pra vários lugares atrás dos caras, assim como a Laura, a Flávia, a Moema e o Léo fazem pra ver o Barão.
Um dia minha mãe me chamou e perguntou se eu queria estudar bateria. Fui feliz da vida para os seminários de música na Pró-Arte, onde fui recebido pelo Joca Moraes, professor de bateria da escola e que também deu aula para alguns outros bateras conhecidos como o Kadu (do Kid Abelha) e o Celso Alvim (Pedro Luís e a Parede e Monobloco). Aí sim eu comecei a tomar o rumo certo.


Você passou por algum problema com os seus pais quando disse que queria ser músico?
 
Passei um pouco sim. Minha mãe era professora universitária, com formação acadêmica e bastante distante do universo musical. Após inúmeras cobranças com relação ao meu comportamento na época, de matar aula, dormir até meio-dia, nunca fazer o dever de casa e ainda tocar bateria num apartamento de dois quartos em Botafogo, resolvi que era a minha hora de cair fora. Tinha 19 anos, nenhum puto no bolso e era feliz pra caralho. Só queria tocar e ralar a minha gata da época, que era a mãe do André, meu primeiro filho.


Fale um pouco sobre os altos e baixos do Barão.
 
Todo mundo acha que a carreira do Barão é muito bem sucedida, mas financeiramente metade foi muito boa e a outra metade não. Tiveram momentos muito difíceis no início até a gente se colocar. Passamos por problemas que toda banda iniciante passa. Levamos várias vezes bateria e amplificador no ônibus. 
Essa profissão é muito doida. A gente não tem patrão, depende exclusivamente da inspiração e da vontade de estudar e praticar o nosso instrumento para melhorar. Temos que dar graças a Deus por ter alguém que quer te ouvir.
Quando você lança um álbum novo, fica otimista que aquilo vá dar super certo, mas às vezes a real é outra, a gravadora não faz um bom trabalho ou o próprio mercado está fechado para o seu segmento de música. Em 1995, me lembro que a rádio Cidade não tocava “Meus Bons Amigos” por que era rock e eles estavam ficando dance, mas agora ela é a rádio do rock de novo.
A barra pesou mesmo foi com a saída do Cazuza. Nós fomos ao fundo do poço e voltamos ao topo por merecimento próprio. Tinha disco de ouro na parede e zero cruzeiros no bolso, já com mulher e filho de quatro meses pra criar. Pegava meu rango na casa da Dona Ivone, mãe de um amigo meu, que lotava uma marmita ótima que eu tinha e, como o esposo dela, Seu Valdir, trabalhava na feira, ela me enchia de frutas para eu dar pro André, que ainda era um bebê. Dessas coisas a gente não pode esquecer e nem ter vergonha. Obrigado por tudo Dona Ivone. 
 
 
Qual o motivo da saída do Dé?
 
O Dé saiu porque achava que o espaço dele no grupo era pequeno demais e também porque não gostava muito de rock, curtia mais era a rebeldia de ser roqueiro. Ele fala numa boa, “Guto Goffi, eu odeio rock!”, aí eu digo, “mas o rock te ama!”.
O Dé sempre foi Vila da Penha, um lance meio Prince do subúrbio, meio Jimmy Hendrix, chorinho misturado com rock. Ele é muito talentoso. Na época da sua saída, ele estava com umas 9 ou 10 músicas inéditas muito boas. Tinha uma parceria com o Cazuza chamada “Empada com Birita”, outras com o Sérgio Brito dos Titãs... Ele achava que o CD “Na Calada da Noite” ia ter essas músicas. Só que eu e o Frejat também tínhamos um monte de músicas, aí na hora da seleção ele se sentiu um pouco desprestigiado e falou que ia sair fora, “vou sair, vocês não gostam de mim, eu não tenho espaço aqui e vão pra puta que os pariu!”. 
O Dé é um pouco metido a estrela. Numa ordem de grandeza de vaidade, depois do Cazuza, o Dé era o mais vaidoso.


A gente já ouviu muito o Frejat falar de como ficou a relação dele com o Cazuza após a saída dele da banda. Mas e a relação dele com você, como ficou? Vocês logo voltaram a se falar ou foi um processo demorado?
 
Na verdade, o Frejat sempre foi o parceiro mais querido dele, mas nós cinco éramos muito amigos. A gente saía juntos todos os dias. Íamos pro Baixo Leblon encher a cara, íamos à praia de manhã pra tirar a ressaca e ensaiávamos à tarde. Era essa a nossa vida no início do Barão. Passamos vários anos assim. Quando ele saiu do Barão, ficamos seis meses sem notícias dele e vice-versa. Cada um encontrou a sua turma e depois, aos poucos, voltamos a uma convivência normal. Nos encontrávamos na noite, ele chamava pra ir à casa dele. Amizade é um bem durável, mas tem que renovar o prazo de validade.
Tem um lance que quero publicar no livro do Barão, uma carta que eu fiz pra ele, acho que em 1988, época em que eu estava meio descaralhado, quando comecei a viajar na onda do disco “Carnaval”. Nós nos desentendemos e ele reclamou comigo que eu estava falando muita loucura e passando dos limites em certos assuntos. Aí fiz uma carta de próprio punho e mandei uma cópia pra ele. Até hoje não tenho a certeza se a carta chegou até ele. A Lucinha era sua guardiã e selecionava o que devia ou não chegar a ele, então nem sei se ele recebeu. A carta é maneiríssima, outro dia eu a li e adorei!
O Cazuza tinha uma relação boa comigo, me dava força. Quando ouviu as músicas do “Na Calada da Noite”, adorou. Se amarrou na letra de “Sonhos Pra Voar” e de “Tão Longe de Tudo”. Nunca falou muito aberto, mas deu o aval pra eu meter bronca. Depois o Orlando Morais comentou comigo que, no hospital, ele tinha dito que as letras do Barão estavam muito legais e que via poesia em minhas letras. 
Uma vez, eu e o Dé fomos na casa dele viajando de ácido. Ficamos lá a tarde inteira. Cazuza já tomava o tal AZT e nós viajando de ácido, mas não contamos pra ele. Quatro ou cinco horas depois, quando contamos que a gente estava doido, ele ficou puto, “vocês tomaram ácido, filhos da puta, e vieram aqui curtir com a minha cara? Vão tomar no cú!” A gente já estava lá há horas! Ele não podia mais usar drogas e ficava puto com os que ainda tinham direito e se permitiam a tal ato!


O que seria do Barão se o Cazuza tivesse permanecido no “Declare Guerra”?
 
Se o Barão não tivesse mudado de formação, teria sido o maior grupo de todos os tempos do rock mundial, tranqüilamente. Eram muitas idéias, o nosso conjunto era muito bom, as músicas não pareciam prato requentado de ninguém. 
O Cazuza não era um artista de se acomodar, isso é uma coisa muito importante na arte, a pessoa estar em eterno movimento. Ele era foda nesse ponto! Acho que os filhos únicos são sempre insatisfeitos com o que tem. Ele era um cara que ia se contradizendo o tempo todo e forçando essa mudança na cabeça de todos. Uma pessoa muito ativa, inquieta e super careta ao mesmo tempo, conservadora no íntimo da alma. 


Numa ocasião descrita no livro “Só As Mães São Felizes”, em que o Cazuza não aparece no aeroporto para viajar com a banda para uma entrevista em São Paulo, o Frejat reclama com a Lucinha, que diz ter dúvidas se a banda chegaria onde estava se não fosse pelo Cazuza. Qual a sua opinião sobre esse comentário? 
 
Honestamente, acho que na vida só acontecem as coisas que têm que acontecer. O que eu posso dizer é que o Barão sempre foi uma estrela de cinco pontas iguais. Todos ali, da formação original, tinham idéias próprias, universo próprio, poesia própria, musicalidade própria. Por isso que eu acho que, hoje em dia, todos do grupo deveriam fazer um disco solo, porque num grupo alguns integrantes acabam ficando muito camuflados. 
A imprensa elege o líder e o povo acredita. Quando o Cazuza saiu, ninguém acreditava no Barão a não ser nós mesmos. Trocamos o nosso cantor, que era espetacular, o melhor poeta que este Brasil já conheceu, e seguimos em frente, sem o cantor que, segundo a Lucinha, seria o motivo do Barão Vermelho fazer sucesso. 
O Frejat teve o apoio de base que precisava, embora o Maurício tenha ficado triste de não ter sido o escolhido para cantor após o nosso karaokê interno. 
O Barão sempre foi uma moldura musical, um tipo de embalagem pra viagem do nosso recado. Quem descobriu o Cazuza como talento musical foi o Barão Vermelho. Foi Guto Goffi, Maurício Barros, Roberto Frejat e Dé. Ele tinha vergonha de cantar, de mostrar as letras. Nós fomos as primeiras pessoas a curtir o que ele tinha pra dizer. 
Na primeira vez que a gente tocou junto, rolou um negócio muito mágico. Quando acabou a música, ficou claro pra nós cinco que o grupo estava pronto para ir em frente por muitos anos. A identificação foi muito forte e imediata. Aquele encontro tinha que acontecer!


O sucesso do filme sobre o Cazuza ajudou na volta do Barão? 
 
Foi muito bom. É impressionante como a galera de 14, 15 anos se espelhou no filme como modelo de comportamento. Os pais também foram ver para descobrir a forma ideal de educar e de se comunicar com os filhos, de segurar essa época da adolescência que é a fase mais explosiva, em que você está indo busca da sua vida, da sua experiência. Acho que o filme ajudou muito. Apesar da parte musical do Barão ser mostrada muito mais verde do que nós realmente éramos na época. A gente era verde, mas era um pouco melhor do que como o filme nos registra. Mas eu não me liguei muito nisso. 
O lance está todo centrado nele. Acho que o criador Cazuza, de certa forma, não aparece muito. Não me lembro de nenhuma cena dele escrevendo na máquina de escrever. Ela era o objeto pessoal dele, o tempo todo ele tava na máquina escrevendo e, no filme, não me lembro de ter muito isso. 
Tem ele saindo com os amigos, subindo na ponte, freando o carro, querendo se jogar de não sei de onde, ficou muito só na maluquice. Mas o filme tem uma coisa linda que é a hora em que termina. Ele acaba na hora certa. Ali era um momento em que ele já sabia que tava se despedindo da vida, mas ainda ia à praia, mergulhava com um cara segurando ele. Depois as cenas dele em Ipanema, na adolescência, aquilo é muito bom, você fica com a imagem dele vivo. O filme me surpreendeu nisso, eu saí alto astral pra caramba. O que eu gostei também foi que a fase do Barão foi a fase mais feliz da história dele, pelo menos no filme isso fica claro. Éramos irmãos unidos, isso o fortalecia muito. Ele queria muito ter um irmão. Aquilo era um escudo contra todos os males do mundo. A partir do momento em que ele perdeu os irmãos, de sua convivência quase que diária, a imunidade dele caiu na hora. Ele ficou doente uma ou duas semanas depois de deixar o grupo. 
Eu e o Frejat vimos o Cazuza num hospital de São Paulo, um ou dois dias antes dele morrer. A Lucinha ligou pra gente e disse “ele está morrendo, venham vê-lo e se despedir, venham aqui”. Nós fomos. Isso foi uma coisa que me chocou pra sempre... A sua imagem... Até que ponto esse rapaz lutou pra ficar vivo... (Guto fica visivelmente emocionado)


O que você achou do recém-lançado CD “O Poeta Está Vivo – Ao Vivo no Teatro Ipanema 1987”? 
 
Ouvi na casa do Ezequiel outro dia. Adorei! Muito bom, excelente! O som nem é tão legal, mas o Cazuza estava no auge da fúria. O Ezequiel falou que ele tinha recebido a notícia que estava com Aids uma semana antes da estréia. Ele disse que o Cazuza tava um “bicho humano uivando”. Ele estava foda nesse show, cantando pra caralho e com aquela urgência de ganhar ou ganhar, não tinha mais tempo pra perder. Muito foda!


Li uma entrevista em que a Lucinha falava que a Sociedade Viva Cazuza está com problemas financeiros. Existe a idéia de vocês fazerem algum show ou evento para ajudar a Sociedade?
 
A gente sempre ajudou a Sociedade Viva Cazuza. Quando ganhamos os Prêmios Sharp, os cheques dos prêmios nós sempre mandamos pra lá. Abrimos mão de todos os direitos de imagem do filme do Cazuza, cedemos todos os direitos para a Sociedade. Não sei o que mais poderíamos fazer. A gente já ajuda bastante.
Gostaria muito de ajudar o Retiro dos Artistas, que vem tendo uma administração brilhante do Stephan Nercessian. Sempre penso que um dia, lá poderá ser a casa de todos nós músicos, artistas e criadores, afinal, no nosso Brasil, ninguém está garantido de porra nenhuma! 


Como é a sua relação com a Lucinha hoje em dia?
 
A minha relação com ela é normal, educada. Eles são legais, o João Araújo é uma pessoa maravilhosa. Não temos nenhum problema. Sempre que me pedem alguma coisa relacionada ao Cazuza e ao Barão, eu topo. Até para o filme, gravamos horas de entrevista, embora nada tenha sido bem aproveitado no roteiro, que acabou ficando em cima do livro “Só As Mães São Felizes”. Sempre que me pedem alguma coisa, até para cessão de direitos autorais, eu colaboro. Acho muito importante esse trabalho de ajudar portadores do vírus HIV, e no caso da Sociedade Viva Cazuza, ajudar diretamente as crianças.  


Com quem você tem mais afinidade de composição no Barão?
 
Na verdade adoro compor com todos eles. Sou parceiro do Peninha em “Carne Crua”, do Rodrigo em “Cara a Cara” e do Fernando em “Meus Bons Amigos”. Com o Maurício eu tenho um lance muito foda. Acho que temos em torno de umas 10 músicas juntos. Nossas músicas são boas e fortes. Minha única implicância com ele é a mania de perseguir o hit perfeito, o que às vezes margeia o universo do jingle. Acho careta fazer uma música e já ficar imaginando o isqueirinho aceso. Definitivamente não componho pra isso. Componho para me esvaziar de tudo que vejo, sinto e armazeno, na cabeça e no coração. 
Com o Frejat já vivi o meu oásis também! Desde “Torre de Babel”, “Declare Guerra” e “Pense e Dance”, que foram as nossas primeiras parcerias, até as mais complexas como “Sonhos pra Voar”, “Flores do Mal” e “A Máquina de Escrever” onde, na minha opinião, a nossa criatividade atingiu a maturidade. 
Sempre me deu muito prazer fazer músicas com o Frejat. O tenho chamado bastante pra compor, mas ele tem estado muito ocupado. Outro dia passei uma letra para ele musicar, chamada “A Carne da Boca”, letra em parceria com o Mauro Stª Cecília. O Frejat fez a música em Mococa, interior de São Paulo. Eu adorei, já fazia tempo que ele não me chamava para escutarmos juntos uma coisa nossa. Ele também não compunha há um tempo e ficou feliz com o novo filho. A gente faz músicas muito boas juntos. 
Nesse trabalho novo do Barão fizemos umas três ou quatro com a Rachel Hernández, minha primeira companheira e mãe do André, meu primeiro filho. Ela escreve muito bem e foi, na verdade, quem me incentivou a escrever. A letra de “Flores do Mal” (1988) é pra ela e foi meu primeiro sofrimento explícito de amor. Primeiro você aprende a sofrer, depois a escrever.
Me senti durante um bom tempo meio preterido no Barão. Comecei a achar que os meus amigos não curtiam a minha poesia, o que de certa forma me tirou o estímulo de produzir para a banda. Fui cuidar da Maracatu Brasil, me envolvi com números, notas fiscais, impostos e a poesia fugiu de mim. O que me fez voltar a mil, com vontade renovada de escrever e fazer músicas novas, foi o jornalista Rodrigo Pinto, o Big Rô do O Globo Online, que me disse que eu era o letrista preferido dele após a saída do Cazuza do Barão. Ele disse que eu não deveria deixar de lutar pelo meu espaço de letrista e que ajudasse a dar mais qualidade às letras do Barão. 
Não guardo nenhuma mágoa por ter ficado esse tempo adormecido. Acordei muito criativo e estou disposto a deixar a minha poesia me comer vivo.  


Como ocorre a escolha do repertório para um disco? Há interferência da gravadora?
 
A escolha é difícil. Nós que fazemos, num processo democrático que é o seguinte: a gente grava tudo, voz e violão, com o Frejat cantando. Todo mundo ouve aquilo junto, com a letra na mão, mas sem o autor da música explicitado para não influenciar na decisão. Depois rola a votação, sim e não, qual música que pra cada um estaria no disco ou não. Aí a gente conta os votos. 
Não acho que essa seja a forma mais correta de seleção. O ideal seria nos envolvermos mais com as músicas. Na verdade, gostaria que o meu grupo ensaiasse todos os dias e que fizéssemos uma nova canção toda semana. É muito difícil chegar a um formato ideal de seleção. 


Tem algum disco que você achava que ia emplacar e não emplacou?
 
Tem. Na verdade, o músico nunca tem a idéia real de como está o mercado e se alguém, além da gravadora, está interessado no seu trabalho. Um disco nosso que vendeu muito pouco foi o “Rock’n Geral”. Fizemos com o Liminha. Na época, todos os discos que ele fazia viravam disco de ouro e no caso do Barão vendeu 10 mil cópias, acho. 
O “Na Calada da Noite”, apesar de ser um discaço e de três músicas terem tocado nas rádios, vendeu 85 mil cópias. O “Supermercados da Vida” vendeu umas 70 mil, menos do que merecia. Na época, o presidente da Warner Sérgio Afonso, prometeu que cortaria o próprio pau se não desse um disco de ouro pra gente com esse disco. Não vendeu, mas calma, ele continua com a sua arma!
O potencial dos discos sempre foi maior do que a gravadora conseguiu extrair. É difícil isso... Nesse último disco, por exemplo, o que vai ficar para o público é “Cuidado” e “A Chave da Porta da Frente”. Não acho que essas duas músicas representem o disco todo. 


Qual música e CD você gosta mais? 
 
O melhor CD do Barão pra mim é o “Na Calada da Noite”. Tem roques bons, letras maduras e musicalidade apurada. Ali a gente tava com vontade de inovar. 
O Barão também tem um disco importante pra caramba que é o “Carnaval”. Não é nem o meu predileto, mas foi um disco em que ou a gente respirava ou morria. 
O “Declare Guerra” é importante também porque a gente tava recomeçando tudo. 
O “Maior Abandonado” é fantástico, apesar de não ter nenhuma música minha, e nem precisava, pois são todas maravilhosas. É um disco todo Jagger e Richards, Cazuza e Frejat. É muito forte por isso, tem uma coesão que é importante. Gosto quando uma, duas ou três pessoas fazem um disco. O “Na Calada da Noite” foi assim. Eu, Frejat e Dé montamos tudo, a concepção, as músicas, os arranjos. A gente tava unido em compor junto, ouvir o repertório um do outro.
Quanto à música que mais gosto, hoje vou escolher “Certo Dia na Cidade”, minha primeira parceria com o Maurício e o Cazuza.


Qual música e CD você gosta menos?
 
Uma letra que não acho muito boa é a de “Quem Você Pensa Que É?”. É uma idéia que poderia ter sido melhor resolvida, mas a música é muito boa. Nunca curti muito também “Linda e Burra”, que o Maurício cantava no disco “Declare Guerra”. “Desabrigado” também não tem uma letra que eu goste. Mas a letra que eu menos gosto é a de “Círculos, Loops e Repetições”, parceria de letra minha com o Mauro Santa Cecília e o Frejat, que também tentou salvar mas...
Antes do Barão voltar a atividade, ouvi todos os discos em seqüência cronológica e o CD que mais me incomodou e que me pareceu o mais careta foi o “Álbum”. Apesar de ter sido um grande sucesso, com canções do Luiz Melodia, Caetano Veloso, Raul Seixas, Carlos Imperial, Eduardo Araújo, Ângela Rô Rô e tantos outros, achei o disco mais distante do que é o Barão Vermelho e o seu conteúdo poético. 
 
 
Vocês tinham expectativa de que o “Álbum” fosse um sucesso ou foi um projeto despretencioso?
 
A gente não tinha botado muita expectativa não. Tínhamos um disco pra terminar nosso contrato e pensamos “não vamos botar música nossa não. Os caras da gravadora toda hora pedem músicas novas e dão na trave.” Na verdade, a grande sacada daquele disco não foi só ter músicas de outros intérpretes, mas também a faixa interativa que era uma inovação na época. Foi o primeiro CD nacional a vir com entrevistas e uma navegação randômica. Isso fez o Barão ir para as páginas de todos os jornais, cadernos e revistas de informática. O estouro do “Álbum” nos surpreendeu e nos fez acreditar que o Barão Vermelho era uma voz, um jeito de interpretar grandes sucessos, fazendo uma releitura original e digna de ser tocada pelas rádios, sem gosto de comida requentada. 
 

Qual foi a motivação da banda para gravar o “Puro Êxtase”? 
 
O “Puro Êxtase” é um disco antagônico porque não era vontade de todo grupo soar moderno. A idéia partiu mais do Frejat e do Maurício. O Maurício achava o Barão cafona naquela fase do “Carne Crua”. Na verdade, a gente estava mais defasado no visual do que no som em si. 
Quando a gente foi gravar esse último disco, o motivo de eu ter implicado com o Maurício no início e pedido pra ele não participar dos arranjos e dos ensaios, foi justamente porque ele tinha essa implicância de achar que o rock mais cru é cafona, que o Barão tocando roquenrou poderia soar ultrapassado. E não tem nada a ver. Quando você faz uma coisa com verdade, atropela o tempo, a estética, derruba preconceitos... Pode ver que esse disco tem uma sonoridade bem mais rock.
O Maurício realmente tem uma cabeça muito moderna, é um super músico, um puta produtor, mas eu tinha medo dele levar a sonoridade do disco mais pra próximo da sonoridade do disco solo do Frejat, do qual ele foi produtor. A banda fez muita força pra fazer uma coisa antagônica, embora tenham músicas que são a cara do trabalho solo do Frejat como “Pra Toda Vida”.
Rock é bateria, guitarras, viradas, alopração! Rock é descontrole! O lance do Frejat é mais cerebral, racional, controlado.


Haverá mais alguma música de trabalho desse último álbum? 

Não, a Warner mandou "fechar o caixão".
 

O que houve com o clipe de “A Chave da Porta da Frente”?
 
Ele foi gravado em São Paulo, num lugar legal, mas a Warner contratou uma firma para captar a imagem e o som sem um diretor que tivesse uma estética. Foi mal filmado, o Frejat estava mal enquadrado, tinha problema de luz que deixava a gente com olheiras. Ia passar na MTV, mas nós mesmos vetamos. A gente já tem muitos clipes ruins, mais um não dá!    


Como você avalia os clipes do Barão?
 
A gente tem uns clipes que eu fico puto! O “Por Você”, por exemplo, é tão estranho... É um clipe que não é nada. O diretor tinha uma câmera na mão, teria que ter uma boa idéia e não conseguiu ter idéia nenhuma. Eu fico indignado quando vejo essas coisas acontecerem. Quando vi esse clipe editado, me bateu uma depressão e eu pensei “o que é Por Você? O que é a história da música?”. É aquele cara que faz tudo pela mulher. Aí lembrei da história do Super Homem, que quando a namorada Louis Lane morre, gira a Terra ao contrário e faz o tempo andar para trás para salvá-la. Era esse o mote, mas já era tarde.


E o DVD de clipes vai sair mesmo?

Vai sair depois do Ao Vivo, com uns 25 clipes. O Barão é inédito em DVDs e o marketing tem que ser todo em cima do Ao Vivo. Depois dele, virá a videografia, mas que não terá todos os clipes. Fiquei muito triste. Achei que fosse ter o “Declare Guerra”, o “Menina Mimada”, que nunca foi ao ar, mas a Globo perdeu do arquivo. 
O “Declare Guerra” era muito engraçado! Éramos nós num barquinho com mar de Fellini (plástico) em volta. Hilário! Os clipes do Barão tinham humor no início, mas depois perdeu não sei por quê. O “Maior Abandonado”, o “Rock do Cachorro Morto” e o “Eu Queria Ter Uma Bomba” eram muito engraçados. 
Deve sair também o DVD do “Balada MTV”. Já o Acústico, acho que não, porque pra mim a gente tinha que fazer um outro e botar aquele como bônus. O Barão é um grupo que com a obra que tem, com a quantidade de músicas e com os recursos que temos pra tocar, se não fizermos um acústico vai ser uma sacanagem. 
O “Carne Crua” e o “Rock in Rio” também devem sair em DVD. 


E o livro do Barão, vai sair?
 
Vai. Consegui um aliado muito forte que é o Ezequiel Neves. Fui na casa dele na última semana, falei pra ele que queria fazer o livro, mas disse que ou eu faria sozinho ou só aceitaria dividir com ele. Ele ficou super feliz. A gente vai convidar um amigo nosso, do Globo, um jornalista que é super próximo ao Barão, o Rodrigo Pinto, o Big Rô. Espero que ele aceite também. Ele escreve muito bem. 
Vou escrever tudo que puder em um mês e pouco e entregar para o Rodrigo. Aí não sei como vai ser. Gostaria que fosse na primeira pessoa porque, na verdade, queria começar o livro contando um pouco da minha história e do Maurício no colégio Imaculada, começando a se interessar por música, com aquele sonho de fazer um grupo de rock. Já tínhamos uns amigos que tocavam, algumas bandinhas formadas... A gente fez o Barão a partir disso. 
Queria que as pessoas pegassem que o Barão teve uma outra formação antes da original, que era eu, o Maurício, um amigo nosso no baixo chamado Cláudio Kayath, e um outro cara na guitarra chamado Tony Roqueiro. Era um quarteto. A gente ensaiou umas duas semanas e vimos que não eram os caras que idealizávamos. Eles eram ótimos, mas não era a galera que a gente tava procurando. Depois é que pintou o Dé, que foi o terceiro a entrar, depois o Frejat e o Cazuza por último. Eu queria passar essa coisa, da gente adolescente, começando a sonhar com música sem tocar porra nenhuma ainda, mas já com aquele fetiche de ser um astro do rock, essa coisa bacana que eu acho que todo o adolescente passa. 
Serão 25 anos de recortes e fotos de toda a nossa trajetória, coisas que guardo há anos e que vão realmente emocionar os nossos fãs, como a capa do livro que por mim será um cartaz feito pelo Cazuza em 1981, para o nosso primeiro show no Circo Voador.
 
 
Mas você vai ter ou já teve algum papo com o resto da banda, porque escrevendo o livro em primeira pessoa vai acabar sendo uma visão sua dos fatos...
 
Aí é que eu acho que vai ser importante entrar o Rodrigo (Pinto). Fiz umas entrevistas há dois, três anos atrás com o Maurício, o Ezequiel e o Fernando. O Frejat não lembro se entrevistei. Foram umas três ou quatro entrevistas. Nessa época, cheguei a escrever dois capítulos, mas não continuei porque estava meio aborrecido com a relação de amizade entre os Barões. O Frejat, eu e o Maurício... Estava uma coisa meio esquisita na época. Aí pensei “se eu for escrever essa merda agora, vou deixar escorrer mágoa”, que é uma coisa que eu acho que não tem que ter. Como a volta agora foi muito boa e está todo mundo bem, em paz, acho que é um momento legal. Será um livro divertido como toda biografia de rock deve ser, ainda mais se tratando de Barão Vermelho.


Como vocês escolheram o repertório da atual turnê?
 
A gente escolheu o repertório tentando favorecer tudo o que tinha muita expressão ao longo do tempo e que os fãs que acompanham a banda desde o início não se sentissem frustrados ao sair do show. Mas pra quem é muito fã é claro que faltam coisas. A gente teria que tocar umas 45 músicas!


A idéia de colocar a intro de “Amor de Irmão” no início do show da turnê foi uma forma de representar o “Rock´n Geral”, único álbum que não tem uma música no set list?

Não, foi uma forma de esquentar a platéia até a gente entrar, de mostrar a gente ali fora. Foi uma idéia do Maurício e tem frases de várias músicas como “Posando de Star”.


Por que vocês nunca mais tocaram o segundo bis (“Billy Negão”, “Carne de Pescoço” e “Jardins da Babilônia”)? 

É, ele tá raro... Rola uma implicância de ter um “Billy Negão”, “Carne de Pescoço”, um rock mais explícito, barulhento. Há um pouco de preconceito. Apesar de que na hora que só tem músicas conhecidas, fica muito balada. Tem hora que a gente tem que explodir o paiol! Às vezes eu tento fazer isso, mas já fui muito mais visceral e chato nesse sentido de ficar exigindo coisas dentro do Barão. 


O que você acha de variar o repertório dos shows?

Por 18 ou 20 anos, fui eu quem fiz os roteiros dos shows. Depois parei. Ficava quebrando a cabeça pra fazer uma coisa foda e depois ficava difícil de mexer. Hoje em dia não esquento mais. O Frejat vem com o roteiro e eu digo “valeu”. Não vou mais discutir por isso.


Vocês vão mesmo fazer uma mini turnê pelos EUA ainda esse ano?

Ia ser em julho, mas mudaram para uma data que a gente não podia. Talvez role em setembro. A gente está querendo fazer.


Quantas músicas inéditas haverá no “Ao Vivo”?

A Warner pediu uma ou duas músicas inéditas. Acho que tenho uma música boa pra botar, uma parceria com o Maurício feita na viagem pra Gramado e Porto Alegre. É uma forte candidata. Além do show, que talvez tenha algum convidado, deve ter uma sessão extra, em estúdio, com aquela metaleira que nos acompanhava nas últimas turnês. Aí vamos tocar “Quem Me Olha Só”, “Daqui por Diante”...


O repertório do “Ao Vivo” terá como base o set list da turnê atual? 

O show é esse. Deve ter a participação de algum cantor que a gente está escolhendo e a música inédita. Também dou força pra ter um set acústico. Seria legal pra mudar um pouco. 


A participação no “Ao Vivo” poderá ser do Ney Matogrosso? 

Na verdade, o Ney é o único cara que eu gostaria. Ele foi importantíssimo no nosso início. Sempre ajudou à distância, sem reivindicar nada. Além disso, ele tem muito a ver com o Cazuza, a postura no palco, e é um super cantor. Pra gente seria ótimo. O único conflito é que o tom dele e o do Frejat não são próximos, então ou um canta ou o outro.


Por que os outros CDs ao vivo do Barão foram gravados em São Paulo e esse será no Rio?

Por causa do Circo Voador. Foi uma idéia do Frejat fazer lá, que tem tudo a ver com a nossa história. Começamos ali. O Cazuza vendeu um som pra arrecadar dinheiro pra comprarem a primeira lona do Circo. A gente sempre fazia shows lá de graça, panfletava na praia pra galera ir nos shows. Gravar lá é uma forma de gratidão do Barão com aquela idéia lúdica que era o Circo Voador e que fez a arte no Rio de Janeiro mudar. O Circo transformou uma geração, mudou a vida de milhares de pessoas.


Qual a história mais engraçada que já aconteceu com você e/ou com a banda?

Já aconteceu tanta coisa! Comigo foi quase uma tragédia, mas no final foi engraçado. Em Goiânia, a gente subiu no palco pra tocar, a luz apagada, o cara anunciou o show, aí eu fui dar um passo pra trás e caí lá de cima, de uma altura absurda de uns 4 metros. Foi uma queda foda! A sorte é que eu caí certinho no chão. Comecei a mexer o dedo do pé, a mão, achei que tinha ficado paralítico!


E teve show mesmo assim?

Teve. Chorei nas três primeiras músicas e depois do show fui para o hospital. No dia seguinte parecia um velho, todo quebrado! Eu não cancelo show por besteira não. Já fiz show com pneumonia e o caramba, no Sul. Tocava, acabava o show, ia para o hospital, tomava benzetacil e no outro dia viajava. Sou casca grossa! 


O que a gente pode esperar do Barão após a turnê do “Ao Vivo”? 

Vamos fazer a turnê do Ao Vivo o ano todo. Teremos um intervalo de um mês em agosto de 2006 porque o Frejat vai viajar com o pai dele para o Oriente. Depois disso voltamos normalmente até o verão. Aí então será a hora de botar na balança tudo o que aconteceu e resolver o que vamos fazer. O que está pré-combinado é que a gente dê outra parada, só que às vezes o lance vem tão bom que podemos não querer parar. Isso pode acontecer.


Para encerrar, deixa um recado pra galera que está começando a tocar e fala um pouco da Maracatu Brasil. 
 
A Maracatu é uma escola de música onde a gente tem cursos livres, em que procuro convidar amigos e pessoas atuantes no mercado profissional. A diferença em relação a outras escolas é que os professores aqui tocam em shows, gravam DVD, participam de turnês e gravações com artistas conhecidos. É uma forma de ensinar música e ajudar a profissionalizar quem está interessado em fazer disso uma carreira. Ser músico é uma profissão difícil, mas ter uma orientação legal com pessoas que convivem nesse mercado e fazem parte disso, acho que é o melhor. Você vai ter a direção certa pra se dar bem. Na música, não é só o talento que conta, você tem que ter muita sorte, estrela, musicalidade e disciplina. Então, pra quem quiser conhecer, Maracatu Brasil!

De pé ao redor do mundo

Nesta sexta-feira santa, ofereço uma canção com conteúdo prá lá de sacro. A canção Stand by me foi composta pelos autores Ben E. King, Jerry Leiber e Mike Stoller. Coube a King fazer seu registro original no disco Don't play that song de 1961. Muitas pessoas, eu incluído, pensavam que seu autor fosse John Lennon. Tudo porque ele fez seu registro dela em 1975. Basta ouvir sua gravação para pensar que é de Lennon. Ficou a cara dele. 

Recentemente a canção voltou à moda. O motivo foi a sua inclusão na trilha do documentário Playing for change/ peace through music. A equipe do projeto escolheu alguns clássicos da canção popular norte-americana e saiu pelo mundo a procura de músicos populares, quase todos desconhecidos, para gravá-las. Quando escrevo popular populares, quero informar que, na verdade, os músicos do projeto são, na sua maioria, pessoas que tocam nas ruas e praças de várias partes do planeta. Gente como o brasileiro César Pope que aparece no vídeo tocando numa praça carioca.

O documentário ganhou um prêmio um prêmio de cinema. Posteriormente, foi lançado um dvd com todas as canções registradas pela equipe. 

Como escrevi no início da postagem, esta canção tem para mim algo de sacro.Sua letra é um incentivo para que cada pessoa procure sempre esforçar para estar de pé com as próprias forças. Um convite para que cada um evite depender dos outros. Que possa ser um construtor de uma sociedade justa e igualitária.

Feliz páscoa!
Aroldo José Marinho







01 abril 2010

Pedaço do coração de Janis e Cazuza

Certa vez ouvi uma interpertação de Janis Joplin. Não sabia o título da canção. Mas fiquei super-interessado. Queria porque queria ouví-la  várias vezes. Parecia até um caso de amor. O tempo passou, ouvi outras vezes nos programas de rádio. Porém os locutores, além de falarem no meio da canção, nunca disseram seu título. Subdesenvolvimento é assim mesmo.

Lendo o songbook de Cazuza, descobri que a canção se chama Piece of my heart. Foi composta por J. Ragavoy e B. Berns. Seu registro mais famoso foi feito por Janis. Mas outros artistas também gravaram essa pérola. É nesse contexto que entra o genial compositor carioca. Ele escreveu Pedaço do meu coração, que é a versão em língua portuguesa.  

Partindo da idéia do texto original, Cazuza praticamente escreveu uma nova canção. Ficou a cara dele. Quem não sabe que é uma versão de canção estrangeira, certamente, pensará que é mais uma obra deste mestre letrista.

Eu deveria lhes oferecer o registro de Janis Joplin (http://www.youtube.com/watch?v=-7JVxE2SYxo) com a letra traduzida. Todavia me falta tempo para sentar e fazer a tradução. Peço perdões. Quando houver situação apropriada, prometo cumprir essa tarefa. Porém não deixar ninguém com água na boca, segue a versão de Cazuza.

Procurei por algum registro da canção na voz de Cazuza no You Tube. Sem sucesso. O que encontrei foi esta gravação que o grupo Bad Girls fez em 1993. Não sei fornecer maiores informações sobre o grupo. Mesmo assim, reconheço que sua interpretação é bonita e envolvente. O arranjo aqui ouvido não fica, em nada, devendo ao original.

Posto o clipe e a letra. Espero que vocês amem assim como eu amei. 
Beijos, abraços e vida!
Aroldo José Marinho

Pedaço do meu coração (Piece of my heart)
Ragavoy/ Berns
Versão: Cazuza

Eu quero que você se sinta
A pessoa mais feliz do mundo
A única capaz de ser pra mim
Um sonho em noite de insônia

Desejo que se satisfaz
Pede muito mais
Sentir gosto de cabelo, de suor
Tanto faz, tanto faz
E te chamam
Amor, amor, amor

Quebra
Em pedacinhos o meu coração de pedra
Quebra
Em pedacinhos o meu coração e guarda
Guarda
Um pedacinho do meu coração contigo
Fica com ele como prova de amor

Você virando noite
Fazendo pose
Não adianta disfarçar
Você quer vacilar

Leva, leva, leva, leva
Até começar a me amar
Me abraça, esquece
Vem falar de alguém
Um beijo solto pelo ar
Onde voar faz sempre bem
Peça mais
Amor, amor, amor, amor

Quebra
Em pedacinhos o meu coração de pedra
Quebra
Em pedacinhos o meu coração e guarda
Guarda
Um pedacinho do meu coração contigo
Fica com ele como prova de amor


Bad Girls- Pedaço do meu coração (Piece of my heart)

31 março 2010

Aniversário de Fito

Sábado foi dia 13. Nada de superstições por favor! Cito a data apenas para comunicar que naquele dia foi comemorado o aniversário de Fito Páez. Quem? O genial cantor e compositor argentino. O moço que, assim como Che Guevara, nasceu na província de Rosário. Fito completou 47 anos.

Certamente, um ou outro leitor poderá se espantar com o fato de um blog de brasileiro citar o aniversário de um brasileiro. Com certeza, esta atitude não é coisa comum. Todavia aqui cabe uma explicação: Fito é um grande amigo de nosso país.

Seu trabalho é conhecido no Brasil por causa de suas amizades com nossos artistas. Paralamas do Sucesso (http://www.youtube.com/watch?v=GLTph8Mj3Oc) e Nenhum de Nós (www.youtube.com/watch?v=T1Qg6V843Rc) gravaram algumas de suas canções. Ele participou de trabalhos dos Titãs (www.youtube.com/watch?v=9MzeJLs6yj0). Já gravou com Rita Lee. Cantou Vaca profana, de Caetano Veloso em shows (www.youtube.com/watch?v=lyQpWznlc50). Toda vez que vem neste país é recebido com alegria e afirma que aqui sempre se sente em casa.

Como esta não é a primeira postagem  que faço sobre Fito e seu trabalho, é a quarta. Por isso, dispenso as informações biográficas. Sua obra é bela e vasta. Seu sentido de novidade nunca se esgota. Vale agora postar um clipe e desejar ao grande Fito só coisas boas.

Feliz cumpleaño!
Harold 

Maria Gadú

Segue  texto de Izabel Toscano. Foi publicado, originalmente,  na edição de  29/03 do jornal Correio Braziliense, referente ao show de Maria Gadú (foto) em Brasília no final de semana.


 


“Linda”, “maravilhosa”, “eu te amo”, “perfeita”, “me leva pra              casa”... Gritos histéricos de meninas com idade entre 15 e 20 anos tomavam o teatro nos curtos intervalos entre as músicas. No banquinho, com violão em mãos, uma jovem com jeito de moleque — calça saruel, tênis, camiseta e cabelos curtos espetados — contornava a timidez pedindo ajuda à mãe que a assistia da plateia. “Mãe, olha isso...”, brincava Maria Gadú, arrancando gargalhadas. 

O primeiro show da cantora de 23 anos na cidade, em duas sessões, na sexta e no sábado, no Teatro Oi Brasília, durou exatamente duas horas. Tempo suficiente para que a jovem impressionasse pelas composições e arranjos. Matou a curiosidade tanto de gente que a conhece pela canção Shimbalaiê, da trilha da novela Viver a vida, quanto de quem já tinha intimidade com o álbum de estreia. 

“Descobri Gadú na internet e me apaixonei. Ela segue a linha da MPB e eu já gostava de cantoras como Ana Carolina. Mas não gosto tanto de Shimbalaiê como a maioria. Prefiro outras músicas, como Altar particular, porque tem letras que me prendem”, conta a estudante Michelle Elias, 18 anos, e membro do fã-clube Bela Flor. 

Nas cadeiras, a plateia era formada, sobretudo, por mulheres (a maioria tão jovem quanto Gadú). Mas era um público feminino diverso. Algumas de salto agulha e vestido com brilho; outras de calça jeans e tênis, à la Gadú. “Admiro a personalidade, a humildade. Ela assume o jeito dela na maneira de se vestir. Eu não ligo se ela se veste como menino ou não. O que me importa é que ela canta com emoção, com o coração”, confessa a estudante Renata Menezes, 17 anos, superproduzida e no salto alto. 

De unânime entre os fãs de Gadú apenas os elogios. A voz de timbre grave é, segundo parte dos admiradores, o que a alçou a revelação instantânea da nova geração da música brasileira. “A voz dela é única. É doce e forte ao mesmo tempo. Ela sabe deixar ainda mais bonita com as letras que compõe. É romântica sem ser comum”, avalia o estudante Rogério Santos, 20 anos. 

Com um singelo boa noite, Gadú subiu ao palco do Teatro Oi Brasília. Daí para frente, concentrou-se no repertório e resistiu delicadamente aos fãs que imploravam (e gritavam): “Fala mais!”. Criou-se um contraste. Ela, tímida; o público, eufórico. “Daqui a pouco, vocês vão pedir o hino (nacional). Vanusa é quem canta o hino”, soltou às risadas, referindo-se ao descompasso musical provocado pela cantora, ícone da Jovem Guarda, durante cerimônia pública. 

A maior parte da plateia, sem perder o fôlego, cantava em coro trechos das canções do álbum de estreia de Maria Gadú — lançado há apenas oito meses. Na sua timidez, junto com a maestria com que canta e toca, Maria Gadú acaba “trocando ideia” com o espectador a seu modo. “Tenho intimidade com o meu público talvez por sermos de idades próximas. Meus fãs são jovens, até crianças. Mas a minha função é cantar, tenho a proximidade que devo ter com eles”, destaca a cantora, em entrevista, antes do show. 

Quando se viu, a apresentação havia se transformado numa grande sala com amigos íntimos. Depois de interpretar canções como Encontro, Bela flor, Shimbalaiê (que ela compôs aos 10 anos), a banda a deixou sozinha no palco. Com voz e violão, como começou a carreira em bares do Rio, Gadú impressionou com a versão de Lanterna dos afogados e composições do repertório de Chico Buarque, de Noel Rosa e de Alanis Morissete. 

O ator e músico Leandro Leo a acompanhou em seguida, como tem feito na turnê de Gadú país afora. O público voltou a se meter: “Canta Crossfox”, gritou um menino. A dupla no palco riu e desconversou. “Minhas influências são todas. Gosto de Bach a Calypso. Chimbinha toca muito na guitarra. Às vezes, dá na telha e eu toco Backstreet Boys ou Sandy & Junior, por exemplo. Acho surpreendente as pessoas estranharem isso. São artistas da minha geração”, conta Gadú. 

Em homenagem ao aniversário de 50 anos de Renato Russo, completados no sábado, 27 de março, Gadú ressaltou: “Não sei se comemoramos ou choramos a perda”. Ela e Leandro Leo emocionaram a todos ao interpretar Hoje a noite não tem luar. 

Antes de se despedir, Gadú cantou Ne me quitte pas, uma das mais esperadas. “É a música que mais amo. Até estou aprendendo francês por causa dela. Apesar de ser uma música antiga, com a Maria Gadú cantando, ficou linda”, derrama-se a estudante Júlia de Soares Lima, de 15 anos. No bis, com Laranja, a cantora fez a plateia quebrar o protocolo e espremer-se em frente ao palco. E o show, que misturou melodias, solos de guitarras, rock e blues, virou festa. 

30 março 2010

Tributo para Armando Nogueira

Os principais veículos de comunicação do país avisaram  ontem (29/03) sobre o falecimento de Armando Nogueira. Nascido no Acre mas radicado no Rio de Janeiro desde os 17 anos, o jornalista de 83 anos não resistiu ao câncer e, às 07:00, partiu para a eternidade. De lá, deverá escrever belas crônicas sobre situações humanas e poéticas.
Talvez o nome de Nogueira, que começou no jornalismo em 1950, não diga muita coisa ou nada para os leitores e as leitoras do blog. Porém, de alguma forma, ele é conhecido destas pessoas. Pelo menos duas criações suas fazem parte do imaginário de todos nós: o Jornal Nacional e o Globo Repórter.
No ano de 1966, Armando ingressou na nascente TV Globo. Foi contratado para a missão de dar um bom formato ao departamento de jornalismo da emissora. Foi ele o criador da Central Globo de Jornalismo (CGJ). Deu certo, seu estilo ágil e objetivo ajudou a TV carioca a ganhar a credibilidade dos telespectadores e a se transformar na Rede Globo que todo o Brasil conhece.
Durante 25 anos, ele foi o comandante do jornalismo global. Foi um dirigente esforçado. Implantou o jornalismo em rede nacional e procurou ter entre seus companheiros profissionais de talento. Estes posteriormente escreveram com talento seus nomes na comunicação de massa deste país.
O ciclo de Nogueira na Globo foi encerrado em 1990. Saiu em busca de novos desafios. Botou, de novo, na ordem do dia, a paixão que sentia pelo futebol. Suas crônicas passaram a ser lidas nas páginas esportivas dos principais jornais brasileiros. Mas a televisão e o rádio não queriam que ele ficasse tão distante. Por isso, lá foi Armando fazer comentários para a rede Bandeirantes, o SportTv e a CBN.
Quem acessar os  noticiários da internet nesta segunda-feira, perceberá que hoje só dá Armando. Parece até ironia, se formos considerar que ele sempre afirmou que o papel do jornalista é divulgar a notícia e não ser a notícia. Todavia não teve jeito. O que não faltou foi gente comentando e lamentando a morte deste mestre do bom jornalismo.
Descanse em paz Armando!
Aroldo José Marinho



28 março 2010

"A Grande Família" completa 10 anos com pretensão de falar para todo mundo

Transcrevo matéria de Audrey Furlaneto, publicou no edição de hoje (28/03/10), no jornal Folha de São Paulo e no site UOL.
A foto que ilustra o texto é de autoria de Renato Rocha Miranda, da TV Globo.
Bom saber que um programa de bom gosto tem grande duração.
Boa leitura!
Harold

"A Grande Família" completa 10 anos com pretensão de falar para todo mundo


AUDREY FURLANETO
da Folha de S.Paulo, no Rio

Dona Nenê achou um cigarrinho diferente em casa. "Sem começo nem fim", definiu Seu Floriano, antes de acender e dar o primeiro trago. Agostinho sentiu o cheiro e encostou o sogro na parede: era maconha. Lineu comeu biscoitos estranhos, teve crise de riso e dançou durante o jantar. Mais maconha.
Seguem-se frases sobre "todo mundo ter seu viciozinho", sobre a droga não causar "tanta onda" quanto se diz. O espectador está diante de "A Grande Família" --em sua exceção.
O roteiro passou por vários departamentos de análise da Globo, segundo o ator Marco Nanini, até virar o episódio "Um Tapinha Não Dói" em 2002, segundo ano do programa, que estreia, no próximo dia 8, a décima temporada.
Série brasileira há mais tempo no ar, casa um elenco de grandes atores (Dona Nenê é interpretada por Marieta Severo, Lineu é Marco Nanini, Agostinho é Pedro Cardoso, entre outros) ao que o próprio elenco costuma classificar como "talento inegável" dos autores, Bernardo Guilherme, 44, e Marcelo Gonçalves, 39.
Os dois começaram a carreira na equipe de Cláudio Paiva, supervisor de texto de "TV Pirata" (1988 a 1992), que, na época, era redator final de "Sai de Baixo" (1996 a 2002).
Quando deram início ao texto de "A Grande Família", em 2001, tinham em mãos os originais de Oduvaldo Vianna Filho, o Vianninha (1936-1974), para a primeira versão do programa, exibido de 1972 a 1975.
A ideia era adaptar 12 textos, mas a equipe produziu roteiros inéditos e ganhou espaço fixo na Globo.
Além da linguagem mais lenta do original, a nova versão perdeu um personagem político (Júnior, vivido por Osmar Prado).
Em comum, manteve a proposta de elenco de qualidade --Jorge Dória e Eloísa Machado eram Lineu e Dona Nenê nos anos 70-- e das boas histórias. "O humor não deve ser finalidade, mas ferramenta. Não temos piadas, o que temos são situações engraçadas", diz Bernardo Guilherme.
Segundo o diretor-geral, Maurício Farias, "há, na verdade, um grande controle de temas". "Não tem humor preconceituoso, apelativo. Dificilmente se faz piada com 'a' gostosa ou 'o' pária. O humor passa pelo cotidiano da classe média baixa", avalia Farias.
 
Tom "correto"

O tom "correto, mas não reacionário", como define Marcelo Gonçalves, sustenta-se na "pretensão de falar para todo mundo". O programa está entre as maiores audiências da Globo (no ano passado, teve média de 33 pontos).
Ao todo, sete roteiristas escrevem os episódios de "A Grande Família". Os atores podem consultá-los, sugerir mudanças e até derrubar histórias.
Lúcio Mauro Filho, o Tuco, por exemplo, não se sentia à vontade para fazer graça sobre a confusão do jogador Ronaldo com um travesti --e a cena caiu. "Conseguimos fazer graça sem vulgarizar", diz o ator.
Para Marco Nanini, "tudo o que não contribuir para contar a história, é dispensável".
"A moral é muito díspar. Você tem que seguir uma base que tenha coerência com uma família de subúrbio. E é preciso arranjar um jeito de introduzir temas mais ousados, como a maconha", afirma.
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País volta a ser oitava maior economia

Segue postagem que li no na edição de hoje (28/03/10) do blog do jornalista Ricardo Noblat. vale a pena comemorar?
Harold


deu na folha de s.paulo

Após 11 anos, Brasil voltou ao posto que havia sido perdido para a Rússia segundo ranking que considera PIBs em dólares
Crescimento ajuda a atrair mais investidores e a elevar influência geopolítica; dados foram compilados pela Economist Intelligence Unit
A recente crise mundial alçou o Brasil à condição de oitava maior economia do mundo em 2009. É a primeira vez desde 1998 que o pais ocupa essa posição no ranking global com o PIB (Produto Interno Bruto) medido em dólares.
A crise econômica no mundo desenvolvido, a fortaleza do real e políticas anticíclicas bem sucedidas adotadas pelo governo contribuíram para esse resultado.
Mas por trás da performance brasileira há também deficiências, como uma economia ainda fechada, que se travestiram de vantagem durante a crise, mas que no longo prazo tendem a voltar a pesar negativamente na trajetória do país.
O desempenho da economia brasileira já havia sido favorável entre 2007 e 2008, quando passou da décima à nona posição no ranking mundial, deixando para trás a Espanha e o Canadá, embora tenha sido ultrapassado pela Rússia.
Com esse movimento, o Brasil também passou a ser a segunda maior economia das Américas, atrás apenas dos Estados Unidos.
Ganhar posições no ranking de maiores economias é positivo porque torna o país mais atrativo para investidores externos e aumenta seu peso geopolítico.
Mas desde que a mudança seja sustentável; e, de preferência, se trouxer chances de mais progresso no futuro.

09 março 2010

Para as mulheres com atraso mas também com muito carinho

Ninguém gosta de chegar atrasado nos eventos importantes. Nem eu. Porém ontem não pude vir aqui prestar uma legítima homenagem às por ocasião do sagrado dia 8 deste mês. 
Peço perdão pela falha às mulheres que fazem parte do Harold's universe. O motivo é que, no fim de semana, fiz viagem até Goiás. Voltei ontem à minha base, lá pelas 12:00.
 Todavia, não foi possível, vir ao blog e escrever algo que possa ser digno de tantas mulheres valorosas que , graças a Deus, eu conheço. Gente como as leitoras deste humilde espaço. 
A falta de tempo também me faz perdir desculpas,  novamente, pois vou postar um clipe-homenagem com uma tradução que não foi feita por mim. Todavia, eu  assino embaixo o texto da canção. Viva o dia 8 de março!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Beijos!
Harold John Lennon- Woman

03 março 2010

Com vocês, Cravo-da-Terra

Quero apresentar para as pessoas que visitam o blog o grupo Cravo-da Terra (foto). Foi meio que por acaso que descobri o trabalho deste grupo catarinense. Lembro que corria o ano de 2006. Era uma sexta-feira, eu estava lendo o caderno de cultura do principal jornal da cidade. De repente, li um texto que contava que um grupo acústico, vindo de Santa Catarina, faria show num espaço alternativo. À medida que ia lendo, ia ficando animado. Queria saber desta gente, escutar sua música. Porém havia um problema: eu estava quebrado de grana, não tinha condição para pagar a bilheteria.

Apesar da desolação, decidi colocar o nome do grupo num site de busca. Fiz bem! Entre as referências que vieram, consegui acesso ao site oficial do Cravo-da-terra. Me pus a lê-lo de ponta a ponta. Lá estava a agenda de apresentações. Uma notícia me fez vibrar: além, da apresentação da sexta-feira, os cinco músicos tocariam, na hora do almoço, na UnB. E o mais importante: seria gratuito.

Chegou a segunda-feira. Lá estava eu na platéia. No palco estavam, tal como na foto à esquerda: Mateus Costa (vocal, contrabaixo acústico), Otávio Rosa (violão, vocal), Ive Luna (vocal, flauta transversal), Rodrigo Paiva (percusssão, vocal) e Marcelo Mello (violino, viola, violão, vocal). O grupo foi mostrando suas pérolas. Quanto mais eu ouvia, mais gostava daquela banda. Era como se eu conhecesse essas pessoas há muito tempo. No final, fui conversar com os integrantes. Falei muito com Ive. Ela é legal! Tem boa vontade e simpatia. Dialogou comigo de maneira afetiva e igualitária.

Posteriormente, consegui um cd da banda. Ouvi diversas vezes. Sempre com a mesma alegria. O passo seguinte foi buscar imagens do Cravo-da-Terra no You Tube. Infelizmente, não há muita coisa. Todavia consegui este vídeo. Tenho orgulho de oferecê-lo para vocês.
Harold

Cravo-da-Terra- Infinito som


01 março 2010

Mais mensalão do DEM

Reproduzo neste espaço matéria escrita por Maurício Savarese, que o UOL divulgou no dia 24/02. Nela, o articulista trata da desitegração política do democratas. Boa leitura!
Harold
Perda do governo do DF acelera declínio do DEM, dizem especialistas
Maurício Savarese- Do UOL Notícias

Um partido que mudou de nome para se reanimar, elegeu apenas um governador em 2006, minguou no Congresso e nas prefeituras, viu a estrelada cúpula da gestão no Distrito Federal cair por denúncias de corrupção e sofre ainda com críticas à administração da maior cidade do país. Apesar de tudo isso, o pior pode estar por vir para o Democratas, disseram analistas ao UOL Notícias.
Para eles, a perda do governo do Distrito Federal no primeiro momento alivia a pressão interna e na opinião pública, iniciada com a série de vídeos que implicam, além de empresários e deputados distritais, o governador afastado José Roberto Arruda (sem partido, ex-DEM) e o vice Paulo Octávio, que renunciou ao mandato nesta terça-feira (23).
Mas o afastamento imposto a Arruda e a Octávio dão aos adversários um poderoso argumento para acelerar o processo que faz o ex-PFL, fundado por um grupo dissidente do que sustentou o Regime Militar (1964-1985), minguar seu poder político desde a eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2002.
O partido que já teve o senador Marco Maciel (PE) como vice-presidente da República hoje sofre para emplacar um companheiro de chapa na provável composição com o presidenciável tucano e governador de São Paulo, José Serra. Em 2008, perdeu quase 40% dos seus prefeitos, ficando com cerca de 500. Levou a gestão paulistana por ser aliado de tucanos que rifaram a candidatura do ex-governador Geraldo Alckmin.
A sigla que na reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso somava 105 deputados, derreteu para 84 na votação de 2002. Quando Lula foi reeleito, em 2006, encolheu para 65 parlamentares na Casa. Ao longo do segundo mandato do petista no Palácio do Planalto, diminuiu de tamanho para 56 – muitos deles migraram para siglas satélites do governismo como PR, PTB, PP e PMDB.
“Será um resultado excelente se eles conseguirem eleger 40 deputados neste ano”, disse Luciano Dias, do Instituto Brasileiro de Estudos Políticos. “A bancada do PFL em 2006 dependia de resultados bons na Bahia, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Já não foram muito bem. Desta vez, com esse escândalo no Distrito Federal – perdeu todo o comando no único lugar onde venceu – repetir o resultado já será difícil.”
Nas pesquisas eleitorais divulgadas até agora, o DEM só aparece na liderança no Rio Grande do Norte, com a senadora Rosalba Ciarini. Oferece candidaturas já competitivas no Pará (Valéria Pires), Mato Grosso (Jayme Campos), Tocantins (Kátia Abreu), Santa Catarina (Raimundo Colombo). “Mas os adversários vão cair de pau neles com a história de Brasília, dizer que o partido não sabe governar e isso trará efeitos negativos que manterão a queda”, disse David Fleischer, da Universidade de Brasília (UnB).
Nos quatro maiores colégios eleitorais do país, o DEM só deve ter candidato na Bahia. Mas ali o governador Jaques Wagner (PT) é favorito para vencer já no primeiro turno. O ex-governador Paulo Souto (DEM) está em segundo lugar, em busca do vazio deixado pela morte de um dos principais representantes do auge do antigo PFL, Antonio Carlos Magalhães (1927-2007).
No Rio de Janeiro, o partido pode ganhar impulso se o ex-prefeito Cesar Maia tentar o Senado. Em Minas Gerais a tendência é de adesão a Antonio Anastasia (PSDB), hoje vice de Aécio Neves. Em São Paulo, a aprovação em queda do prefeito Gilberto Kassab pode prejudicar decisivamente o voto em deputados do partido. “O cenário é de declínio. Se não mudou até agora, não vai ser no auge da eleição”, disse Claudio Couto, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
Otimismo democrataO ex-prefeito do Rio vê chances de o DEM avançar sua fatia no eleitorado em quatro Estados onde teria chance de conquistar o governo estadual: Rio Grande do Norte, Bahia, Santa Catarina, Mato Grosso. E avalia que a perda da cúpula do governo do Distrito Federal não terá impacto nas eleições gerais.
“Em países continentais como Brasil e Estados Unidos, os ‘escândalos’ regionais ficam sempre restritos a esse âmbito. Vide a cidade de São Paulo, com vereadores presos durante a gestão de Celso Pitta, ou o Rio Grande do Sul com os escândalos do PT e a contravenção e o (mais recente) do Detran”, afirmou Maia.
As referências dizem respeito ao escândalo da máfia dos fiscais durante a gestão de Pitta em São Paulo (na eleição seguinte a petista Marta Suplicy venceu), às denúncias de omissão do governo de Olívio Dutra no combate ao jogo do bicho (o peemedebista Germano Rigotto tirou o PT do governo pouco depois) e de desvios de recursos do Detran na gestão de Yeda Crusius (a tucana conta com minguado apoio para tentar se reeleger neste ano).
Também com base nesses dados estaduais, o líder do partido na Câmara, Paulo Bornhausen, prevê aumento de 65 para 75 deputados eleitos da sigla neste ano. “Durante a campanha as coisas se equilibram. Antes o governo avança, porque tem toda a máquina a seu favor. Na campanha a oposição equilibra”, disse ele, que vê preconceito da imprensa com o partido por “colocar a situação no Distrito Federal como se ela representasse todos que estão lá”.
“Isso é o que o PT, de forma stalinista, deseja: dizer que somos todos iguais. Mas não somos, porque a saída deles dois (Arruda e Octávio) demonstra que não somos tolerantes com a corrupção como eles foram”, afirma.
Couto, da FGV, não vê razão para tanto otimismo do deputado. “O DEM é um partido em declínio e isso é ruim para o cenário político brasileiro. Falta uma direita orgânica, porque a que temos é a patrimonialista, que é predadora do Estado e vai do PMDB para a direita. O DEM poderia ocupar esse espaço. Mas não ocupa”, afirmou.
“A tentativa de modernização de anos atrás poderia ter revigorado o partido, mas Arruda acabou e Kassab está patinando. Sobra quem? Só os filhos e netos daqueles que mandavam no partido pouco tempo atrás. Também por isso não haverá uma candidatura de direita nestas eleições. O encolhimento do DEM torna a disputa no Brasil polarizada entre a esquerda moderada do PT e o PSDB, de centro e liberal.”

Espanto e esperança

A política é uma situação instável. Num momento, os seus militantes têm todas as glórias. Noutro, nada que mereça boa lembrança. Provavelmente, esta constatação não é invenção minha. Porém, desde os meses finais do ano passado, se tornou muito forte para mim e demais pessoas residentes no Distrito Federal (DF). O escândalo envolvendo personalidades políticas da cena local foi o fator motivador dessa constatação.

Corria a segunda metade do mês de novembro de 2009. Tudo parecia tão comum para a administração de José Roberto Arruda (o sujeito calvo aí da foto), governador com administração aprovada por grande parte dos moradores do DF. Do jeito que a carruagem ia, parecia que a reeleição dele e do vice Paulo Octávio, em 2010, era só uma questão de tempo. Provavelemente, uma vitória de primeiro turno, tal como ocorreu em 2006. Essa calmaria eleitoral parecia ser compartilhada por deputados distritais como Leonardo Prudente, Junior Brunelli, Eurides Brito, membros da base de apoio ao governo. O mesmo poderia ser dito de Rogério Ulysses (PSB), teoricamente, membro da bancada de oposição ao governo Arruda.


Mas eis que uma bomba explodiu e desfez a calmaria da vida eleitoral local. Não foi uma bomba igual à que dizimou milhares de pessoas em Hiroshima e Nagasaki. Foi uma bomba simbólica. Porém seus efeitos foram mais do que devastadores. Deixaram vítimas e destroços nas carreiras de personalidades políticas. Quem jogou esta bomba não foi nenhum avião norte-americano. Foi um homem, um homem-bomba (sem trocadilhos, por favor). Seu nome é Durval Barbosa (esse que aparece à esquerda na foto).


Policial de origem, este indivíduo sempre atuou nos bastidores políticos do DF. Tinha trânsito com muitas lideranças. Um exemplo é o fato de ter atuado como secretário de Relações Institucionais do DF na administração de Joaquim Roriz (que era do PMDB, atualmente no PSC), que não apoiou a candidatura da dupla Arruda/Octávio. Apesar de policial, Durval se meteu em muitas situações excusas. Foi descoberto. Passou a ter seus passos vigiados pela justiça e pela polícai federal. Muita coisa se descobriu dele. Se fosse contar teríamos panos para várias mangas. Trinta processos ou mais podem acabar com a existência livre de qualquer pessoa.


Será que esse foi o pensamento de Barbosa? Não é possível afirmar que sim. Todavia ele tomou uma atitude não comum nos meios onde a corrupção parece ser um pássaro que ninguém nunca vai alcançar. Mas desta vez o pássaro foi fisgado. A justiça do DF condenou Durval a devolver aos cofres públicos 9 milhões de reais. Temendo condenações mais contundentes, ele mudou de postura e passou a colaborar com as autoridades jurídicas. Por isso, entregou às pessoas da lei diversas horas de gravação de vídeo. Nelas ele aparecia pagando propina políticos locais. Gente citada nos parágrafos anteriores: Arruda, Octávio, Prudente, Brunelli, Brito, Ulysses e outros mais. Haja grana! Haja gente passando a mão nela.
As primeiras gravações foram divulgadas. As pessoas implicadas comentaçaram desmentir os fatos. Normal! Desculpas estaparfúdias foram dadas para justificar as gravações. Super-normal! O governador, através de sua assessoria, explicou que o dinheiro recebido de Barbosa era destinado para comprar os panetones que seriam distribuídos às populações de baixa renda. A explicação não colou porém deu um saboroso nome para o escândalo: Panetone gate! Prudente, deputado presidente da Câmara Legislativa, e líder de uma igreja protestante muito querida na classe alta, justificou que colocou dinheiro nas meias pelo fato de não usar bolsa ou pasta. Aliás, junto com Brunelli, que é filho de um pastor cuja igreja é bastante estimada nas classes menos favorecidas, fez uma oração dedindo para Deus abençoa Durval, o santo provedor de todos eles. Amém!
Com as imagens divulgadas, foi difícil para os envolvidos jogarem a história para baixo do tapete. Por debaixo dessa ponte começou a rolar muita água. A enxurrada trouxe resultados surpreendentes para a cena política nacional: Arruda está preso, Octávio renunciou ao mandato no governo. O mesmo fizeram Prudente e Brunelli. A Câmara Legislativa abriu processo de impeachment para o governador detido e, pelo andar da carrugem, deverá cassar o mandato de Brito.

Pouco? Sim! Contudo já é um começo. pela primeira vez na vida democrática nacional um governador é preso em plena vigência de mandato. Essa desmoralização da classe política local pode propiciar uma intervenção federal na cena política do DF. Há pessoas que não desejam esse acontecimento. Não penso como elas. Acredito que tudo que puder ser feito para reconstruir o sentido da ética e do respeito neste lugar deve feito. Doa a quem doer. Esse é o melhor presente que se pode oferecer para Brasília quando esta se prepara para comemorar 50 anos de fundação.

Aroldo José Marinho







25 fevereiro 2010

A água da Amazônia está sendo roubada?

Durante os nove anos em que residi em Belém, tomei contato com o trabalho do jornalista Lúcio Flávio Pinto, 44 anos. Sociólogo de formação, o cara trabalhou para importantes jornais brasileiros. Entre eles, O Estado de S. Paulo, onde por 18 anos foi correspondente na Amazônia. No meu período de pré-verstibular, eu era leitor assíduo do Jornal Pessoa, editado por Pinto.

Além de escriba talentoso, ele é uma das pessoas que mais entende de Amazônia neste país. Ler seus textos traz um ganho duplo: a gente se instrui sobre pertinente assunto e, de quebra, aprende a escrever textos bons e afasta o fantasma da redação de vestibular de nossas vidas.

Saí de Belém e não soube mais notícia dele. Hoje, meio que por acaso, soube que Lúcio é colunista do Yahoo. Lá, assina a coluna Cartas da Amazônia. É desta coluna que transcrevo texto para aprensentar Lúcio Flávio Pinto aos leitores e leitoras do blog

Boa leitura!
Harold


A água da Amazônia está sendo roubada?

Estima-se que 1,5 bilhão de seres humanos já não disponham de água suficiente para suas necessidades essenciais. Significa que, de cada 5 habitantes da Terra, um não tem água nem para beber. Esse contingente, que equivale à população do maior país do mundo, a China, vai precisar resolver esse problema vital de alguma maneira. Pela via pacífica ou através da força. A próxima guerra será pela água, anuncia um número crescente de profetas, baseados mais na correlação lógica de fatores do que numa análise minuciosa e específica das situações.

Este é o mesmo método que utilizam para apontar o sítio dessa próxima guerra: a Amazônia. Nada mais lógico: a bacia amazônica, que se espraia por nove países da América do Sul, mas tem dois terços das suas águas drenadas no território do Brasil, representa 68% da massa de água doce superficial do nosso país e de 8% a 25% (conforme as diferentes avaliações) do total do planeta. Sua principal riqueza ou está escondida no subsolo, em depósitos de minérios, ou na sua floresta tropical, um terço do que ainda subsiste sobre a superfície terrestre. E a mais rica em biodiversidade. Um tesouro difícil de ser protegido, sujeito a todas as formas de roubo.

A mais nova seria a do bem mais abundante e de fácil apropriação. Seguidas denúncias, apregoadas pelas vozes mais distintas, têm assegurado que já seria “assustador” o tráfico de água doce da Amazônia para o exterior. O alerta mais recente foi feito no final do ano passado pela revista jurídica Consulex. Ela garantia que algumas empresas já praticam com desenvoltura essa forma de roubo, que já tem denominações como hidropirataria e bioinvasão.

A atividade ilegal estaria sendo praticada por navios com capacidade de armazenar 250 milhões de litros (ou 250 mil metros cúbicos) de água, que uma empresa da Noruega forneceria para clientes na Grécia, Oriente Médio, Ilha da Madeira e Caribe. Por sair pela metade do custo da dessalinização, o roubo de água teria se tornado atraente no comércio com países carentes de água doce superficial.

A matéria da revista é rica em detalhes e conjecturas, mas não o bastante para convencer sobre o que relata, ecoando denúncias já numerosas. Claro que o acervo de água da Amazônia é questão transcendental. Exige atenção, seriedade, prioridade e investimentos. Todos esses elementos são de enorme deficiência atualmente. O Brasil tem mais de 120 comitês de bacia. Só um deles fica na Amazônia e tem ação urbana, na cidade de Manaus. É um despropósito paradoxal com o significado mundial da bacia amazônica.

Os escassos investimentos em manejo de água na região não permitem um conhecimento adequado sobre os seus recursos hídricos. O interesse mundial cresce numa velocidade muito superior à da atenção nacional. Mesmo as denúncias mais detalhadas, como a da Consulex, porém, ainda se revelam meramente especulativas, quando não totalmente fantasiosas. Devem servir de alerta para o problema, se – e quando – ele surgir.

Até agora, não há nenhum caso comprovado de roubo de água amazônica em território nacional, incluindo o mar de 200 milhas. Os grandes navios (1.200 por ano) entram na região em busca de outros recursos naturais, principalmente minérios e madeira, atracando em cinco portos de grande movimentação. Não têm espaço característico – nem tonelagem necessária – para acumular água – e em escala comercial.

A única área que poderia proporcionar essa pirataria é a foz do Amazonas, onde está a maior ilha fluvial do mundo, a de Marajó, com 50 mil quilômetros quadrados. Nela, o grande rio chega a despejar mais de 200 milhões de litros de água por segundo, no auge da cheia. Não há qualquer caso concreto de um superpetroleiro que tenha estacionado nesse local para se abastecer de um volume como os 250 milhões de litros citados. Pode parecer muito, mas esse volume de água equivale a menos de meio segundo de descarga na vazão máxima natural que o rio Tocantins já alcançou no local onde foi construída a barragem da hidrelétrica de Tucuruí, a quarta maior do mundo, em 1980.

Não parece um grande negócio, capaz de justificar o investimento e o risco, ainda que o patrulhamento da costa amazônica seja deficiente (o que induziu no projeto de criação da nova esquadra da Marinha, prevista para ter sua sede em São Luís do Maranhão e não em Belém, como pareceria mais lógico). A Capitania dos Portos do Pará assegura que fiscaliza todos os navios que entram e saem da região e que, por amostragem, acompanha a qualidade da água que carregam em seus porões como lastro. As normas internacionais autorizam essa operação, que constitui prática comum e nada tem a ver com objetivo comercial ou mesmo roubo com objetivo científico.

A água que o Amazonas despeja no Oceano Atlântico é rica em material particulado em suspensão. Mas qualquer pequena coleta pode ser suficiente para um estudo completo sobre o que contém – e isso é feito por meios legais, normais e saudáveis (embora não na escala recomendável). Quanto ao uso para outros fins, pelo menos para a costa dos Estados Unidos, o Amazonas já dá sua contribuição em larga escala – e gratuita. Avançando até 100 quilômetros no oceano, suas águas derivam para o norte pela força da corrente marítima, indo parar no litoral da Flórida.

Se não é para nos roubar água potável (com volumosa quantidade de sólidos em suspensão), então essa pirataria seria para recolher água rica em nutrientes para algum objetivo ainda não identificado (e, talvez, jamais identificável, por irreal). O campo ainda está aberto à imaginação e à especulação. Para delimitá-lo, a melhor atitude para o bem do país é, sem deixar de se manter atento, investir no conhecimento dos nacionais sobre sua própria riqueza.

O Brasil deve acompanhar com atenção e sempre com atualização o que pensam (e o que fazem) os estrangeiros sobre a – e na – Amazônia. Dispondo de mais recursos e com objetivos mais bem definidos, eles podem servir de espelho para refletir melhor o que os brasileiros e, em particular, os amazônidas, nem sempre conseguem ver, por falta de meios humanos, técnicos e científicos equivalentes.

O mais importante, porém, é saber e acompanhar o que os próprios nacionais pensam ou fazem, em numerosos casos dilapidando os recursos naturais ou os utilizando de forma irracional. Campeão em estoque de água doce do mundo, o Brasil é medíocre no seu manejo. Em Belém, que, por sua localização, serve de porta de entrada da Amazônia, um dos problemas que sua população – de quase 1,5 milhão de habitantes – enfrenta é a falta de água boa para beber, apesar da vasta massa que forma o estuário onde ela se situa. Este é o triste paradoxo atual, cuja visualização e compreensão as sempre vivas teorias conspirativas dificultam.


Fantástico e Nirvana 2

Segue segunda parte da matéria que Álvaro Pereira Júnior fez sobre o Nirvana para o programa Fantástico.
Cordialmente!
Harold


Fantástico e Nirvana

Segue primeira parte da matéria que Álvaro Pereira Júnior fez para o Fantástico sobre a passagem do grupo Nirvana no Brasil.
Tudo de bom!
Harold


Letra e tradução

Segue postagem da canção com letra e tradução.
Harold

Pennyroyal Tea
Kurt Cobain

I'm on my time with everyone
I have very bad posture

Sit and drink Pennyroyal Tea
Distill the life that's inside of me
Sit and drink Pennyroyal Tea
I'm anemic royalty

Give me a Leonard Cohen afterworld
So I can sigh eternally
I'm so tired I can't sleep
I'm a liar and a thief
Sit and drink Pennyroyal Tea
I'm anemic royalty

I'm on warm milk and laxatives
Cherry-flavored antacids

Sit and drink Pennyroyal Tea
Distill the life that's inside of me
I'm anemic royalty (x2)


Chá que custa um centavo

Kurt Cobain

Eu passo tempo com todo mundo,

Minha postura é muito ruim.


Eu sento e bebo um chá que custa um centavo,

Destilo a vida dentro dele.

Eu sento e bebo um chá que custa um centavo,

Eu sou uma realeza anêmica.


Me dê um Leonard Cohen pós-vida

Para que eu possa supirar eternamente.

Estou tão cansado que não consigo dormir.

Eu sou um mentiroso e um ladrão.

Eu sento e bebo um chá que custa um centavo,

Eu sou uma realeza anêmica.


Eu vivo na base do leite quente e laxantes,

Antiácidos e saborosas cerejas.


Eu sento e bebo um chá que custa um centavo,

Destilo a vida dentro dele.

Eu sou uma realeza anêmica.



Recordando Nirvana após 15 anos de saudade

Alguém me lembra que no dia 20 de fevereiro de 1967 nasceu Kurt Cobain. Para quem não está ligando o fato, Cobain foi um dos fundadores de Nirvana, uma das bandas norte-americana mais influentes da história dos anos 90, que encerrou suas atividades em 1994, após o suicídio do vocalista e guitarrista. Ele foi aclamado como um compositor que conseguia transfomar em texto as angústias e inconformismos da geração juvenil daquele período.


Confesso que não acompanhei com intensidade o trabalho de Nirvana. Mas não nego que algumas de suas canções sempre me fotos chamaram atenção. Cito três: Lithium, Jesus doesn't want me for a sunbeam e Pennyroyal tea. Há pessoas que dizem que essas canções são tristes, desesperançadas. Algumas são mesmo. Todavia seus conteúdos não perderam sentido nem beleza artística.

Para esta postagem escolhi Pennyroyal tea, que eu passei a gostar quando ganhei de presente o album MTV unplugged in New York, de 1994. Gosto muito deste disco.

Harold