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22 maio 2009

ENTREVISTA-Rita Lee

Reproduzo a entrevista que Rita Lee (foto) concedeu à repórter Márcia Abos, do jornal O Globo. A rainha do nosso rock divulga o lançamento do Dvd que gravou para o canal pago Multishow. Detalhe, esta é a primeira, num 12 anos, que ela concede uma entrevista que não seja por e-mail.
Vamos ao texto!
Harold



ENTREVISTA-Rita Lee

SÃO PAULO — Rita Lee resolveu quebrar um jejum de 12 anos sem dar entrevistas pessoalmente. A deixa foi o lançamento do DVD “Multishow ao vivo”, pela gravadora Biscoito Fino. Apesar de estar com uma forte gripe, a compositora e cantora recebeu a reportagem do GLOBO no estúdio que tem anexo à sua casa em São Paulo. Vestida com uma calça multicolorida, camiseta preta e, por cima, para se aquecer no frio paulistano, uma camisa larga de flanela, ela estava bem-disposta e teve paciência para responder a perguntas por mais de uma hora, sempre solícita. Falou de sexo, drogas e rock ‘n’ roll sem pudores e com seu peculiar senso de humor. Mas não deu sinais de pretender abandonar seu meio de comunicação favorito com a imprensa, o e-mail.
Márcia Abos

O GLOBO: Como foi selecionado o repertório do DVD "Multishow ao vivo"?
RITA LEE: A gente estreou a turnê “Pic nic” em janeiro de 2008. De lá para cá, para não ficar aquela coisa retinha, certinha, começamos a tirar e a pôr músicas, também acompanhando pedidos do público. Para o especial, fizemos um esqueleto dos hits que todo mundo quer ouvir e que a gente não sai do palco sem tocar, como “Ovelha negra”, “Doce vampiro”, “Lança-perfume”. As outras, a gente tirava e punha, como “Mutante” e “Cor de rosa choque”, que fazia tempo que não cantava.

Uma das inéditas é “Insônia”. Você sofre de insônia?
RITA: Sofria. Pastei demais. Na época do “Saia justa” (de 2002 a 2004, Rita foi uma das apresentadoras do programa do GNT) era uma coisa...
Tentei de tudo, menos remédios, porque não posso tomar, acabo tomando a farmácia inteira, não sei quando parar. A mesma coisa com bebida, com tudo. Ou fico careta ou caio de boca. Na época da insônia eu já tava careta. Estou careta há três anos e meio, desde que nasceu minha neta. O nascimento dela foi um marco zero, pensei: “Onde estou? Esse filme, eu já vi muito”. Mas a tomação tem um preço. Quando você para, é insônia total. Aí comecei a perceber que a insônia era uma namorada. Tinha um lado de rolar na cama, e ela está lá.

Você está totalmente careta, nem um vinho de vez em quando?
RITA: Não posso nada. Sou alcoólatra, então bebeu o primeiro, f... Meu pai e meu avô eram alcoólatras, minha irmã morreu de alcoolismo, overdose. Quando comecei a fazer a turnê do “Bossa ‘n’ roll”, baixou um Vinicius de Moraes, e eu estava ali com um uisquinho. Álcool é a droga mais pesada que já experimentei. E tem essa hipocrisia de ser liberado, “Se beber, não dirija”. Isso tudo é cínico.
Ou libera tudo ou proíbe tudo.
Quando nasceu minha neta, eu tava em um hospício. Porque rehab para mim é hospício, lugar de gente louca, que tem compulsão a tudo: comida, sexo, jogo, álcool, drogas.
Mas não me arrependo de ter feito tudo o que fiz, de ter tomado tudo o que tomei, de ter passado pelas esquinas por onde andei. Não tenho discurso de madalena arrependida.
Teve um lado bom de alcançar um arquivo que eu jamais alcançaria careta.
Mas é perigoso. Você consegue coisas maravilhosas, música, letra, a ousadia. Mas você abre a guarda e, nessa, vem o outro lado da moeda, que é o escuro. Era uma coisa Luke Skywalker, agora é Darth Vader.

Como é trabalhar em família, com seu filho Beto Lee e o marido, Roberto de Carvalho?
RITA: É o pai, o filho e a espírita santa (risos). É muito bom. Antes de o Beto ser meu filho, ele é um grande guitarrista. Vê-lo ao meu lado é muito louco. Lembro-me do Beto na coxia em um show há anos, no Maracanãzinho, com uma guitarrinha de plástico. Ele atravessava o palco na maior. É normal ele estar do lado.
Adoro os solos dele, fico babando, como mãe coruja e colega de trabalho que aprecia. E, do outro lado, o pai dele, nossa, é tão bom. Porque eles me dão uma segurança bacana, de “vamos nessa, mãe”.
Em suas composições recentes “Tão”, “Se manca” e “Insônia” há algo de reclamação, de resmungo.

Você está numa fase reclamona?
RITA: É coisa de idade. Sabe velho rabugento? A gente fica reclamão, implicante pra caramba. Reclamo de sair da minha casa. Aí eu falo, “putz, vou pegar avião”. Tenho medo, pavor. Quando eu enchia a cara, tudo bem. Mas agora, careta, tenho pânico, não acredito em avião. Acredito em disco voador, já vi, até. No hotel, olho para o travesseiro e falo: “Está cheio de ácaro de alguém, de outras pessoas, não os meus”. O barulho da geladeira no hotel... Vou reclamando até pisar no palco. No palco, acaba tudo. É muito louco. Palco é realmente outro planeta.

Como é viver um casamento de 33 anos?
RITA: Não tem receita. Tem mudanças, fases. Como naqueles joguinhos em que a gente passa de uma fase para outra. No começo, tinha aquela coisa de ciúme, aquela trepação de coelhinho. Agora é menos quantidade e mais qualidade. É uma coisa mais sutil. Ele é muito romântico, manda flores toda semana. A gente combina. Eu escrevo uma letra, e ele vem com uma música. É uma aventura morar, compor, ter tido filhos com ele.

E essa sua carioquice recente?
RITA: Meu amor pelo Rio vem desde criança. As primeiras lembranças que tenho, ainda vivas, são um filme em branco e preto. A calçada de Copacabana, a Guanabara, a Nara (Leão), que rima com Guanabara, a bossa nova, concurso de miss no Maracanãzinho, bailes de carnaval no Municipal, com aquelas estrelas de Hollywood, e, de repente, chegava Luz Del Fuego, abria o casaco, estava pelada e roubava a cena de todo mundo. Isso só acontecia no Rio quando era capital. Depois que a capital passou a ser Brasília, o Rio de Janeiro foi absolutamente abandonado.
Isso é terrível. O Rio é o cartão postal do Brasil, a capital do país de verdade. Tinha que voltar a ser capital federal, seria engraçado, leve, a cara do Brasil.

A relação com gravadoras é complicada?
RITA: Com a Biscoito Fino, não. Em gravadora sempre tem aquele produtor que tem um cunhado compositor, ele quer enfiar uma música dele no CD. É o fim da picada, mas eu sempre tirava isso de letra. Agora a Biscoito não é uma major, é uma coisa de amigo. São todos meio chegados, a gente pode dizer o que quer, e não se metem. Sempre fiz o que eu quis e briguei muito em gravadoras porque eram incompetentes. Não entendiam, não investiam nas pessoas certas, que mereciam. Depois, com o tempo, virou aquela clonagem.
Ivete Sangalo deu certo, maravilhosa, vieram os clones. O mesmo com dupla sertaneja. Então as gravadoras ficaram clonando em vez de ver os alternativos, a meninada.
Aí apareceu a internet, e eles se f...

O que você acha de pirataria, downloads na rede?
RITA: Adoro. Eu faço e pode fazer das minhas coisas tranquilo. É uma vitrine, tá ali. É assim que está, é muderno.
Toma chocolate e no paga lo que debes. Porque chocolate é de graça agora. Acho simpático, democrático.
Agora você ganha grana em show, porque disco não vende, é só baixar.
Em show você ganha, porque não tem uma Rita Lee pirata cantando.

Quais são seus novos projetos?
RITA: Quero fazer um trabalho de inéditas e retomar aquela ideia de bossanoviar. Queria bossanoviar músicas de cinema brasileiro, italiano, americano. Isso é um projeto paralelo.
Outro é fazer música instrumental, como é só isso que ouço, tenho vontade. Para o disco de inéditas, já temos o material, o negócio agora é parar entre um show e outro, garimpar as melhores e gravar.

A gravação do DVD, no Vivo Rio, apresentou um problema que tem sido rotina, da repetição de algumas músicas. O que você acha disso?
RITA: Isso é insuportável, brocha pra caramba. Mas não tem outro jeito.
As pessoas que estão assistindo são avisadas de que é gravação, mas para nós, que estamos no palco, é uma brochada legal.
Há mais de dez anos você não fala pessoalmente com jornalistas.

Por quê?
RITA: Faz 12 anos que não falo com repórteres. Falo por e-mail, acho tão mais confortável. É mais prático, é moderno, você não sai daí do seu lugar, eu não saio do meu, não tenho que passar batom, você não tem que enfrentar trânsito. Mas muita gente se queixa: “Ah, eu queria olhar cara a cara”. Mas para que olhar cara a cara? Para ver minhas rugas? E eu olhar para você para quê? Para sentir o bafo? Não é legal, desconcentra.
Escrevo muito melhor que que falo, e, se na primeira rodada de perguntas não deu, fazemos outras, até esgotar. Sua palavra não é distorcida.
E eu odeio telefone.

8 comentários:

Lêda Maria disse...

Com todo respeito : muito doida essa mulher.

:)

Anônimo disse...

Essa cantora mediocre é mais uma prova de como a tecnologia pode distanciar as pessoas.

Harold disse...

Maria!
Você tem razão.Rita Lee é muito doida e genial. É muito bom saber da obra dela.
Beijos!!!

Harold disse...

Anônimo!
Todas as opiniões são respeitadas neste blog. Só não consigo concordar com a sua.
Abraços!!!

Anônimo disse...

Se vc não concorda é pq vc tbm é uma vítima dessa frase que ela colocou:

"Falo por e-mail, acho tão mais confortável. É mais prático, é moderno, você não sai daí do seu lugar, eu não saio do meu, não tenho que passar batom, você não tem que enfrentar trânsito."

As pessoas estão trocando o calor humano pelo frio das maquinas. FATO.

Harold disse...

Anônimo!
É verdade que há muita impessoalidade nas relações entre humanos. Não deveria ser dessa maneira.
Quanto à sua opinião sobre Rita Lee, continuo respeitando sua opinião. Só não concordo com ela.
Todas as opiniões são bem vindas e publicadas neste blog.
Tudo de bom!

Elisabete de Mello disse...

Amo Rita Lee.
As entrevistas através de mensagens eletrônicas não podem sofrer distorção alguma.

Harold disse...

Sweet Bete!
I love Rita Lee too.
Kisses!!!