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03 maio 2009

Josinaldo, o índio de jaleco branco

Segue transcrição de matéria que é capa da edição de hoje (03/05/09) do jornal Correio Braziliense, daqui de Brasília. Detalhe: o personagem da matéria é meu amigo.
Abraços!
Harold


Josinaldo, o índio de jaleco branco

Representante da aldeia Atikun caminha para ser o primeiro da história de seu povo a concluir medicina na UnB
Marcelo Abreu


Fotos: Cadu Gomes/CB/D.A Press
Meta de Josinaldo é aliar os conhecimentos de seus ancestrais à medicina convencional: “eu preciso ser médico pra ajudar o povo da minha aldeia”


Sexta-feira, feriado, Dia do Trabalho. Numa partida de futebol entre alunos índios e africanos, estes últimos deram uma sova nos primeiros: 5 x 1. Os índios saíram cabisbaixos. Queriam cavar um buraco para enfiar as caras. Haja pajelança para reverter o resultado nos próximos duelos. Por telefone, nosso personagem, que ainda não conhecíamos, nos diz: “A gente pode se encontrar no prédio da biblioteca”. Combinado. O encontro será às 11h30. Pontualmente, chegamos lá. E lá se aproxima o rapaz sobre o qual contaremos esta história. O andar é apressado. Veste calça jeans, camiseta branca, tênis e uma mochila. Sim, é ele mesmo, o rapaz pelo qual esperávamos para a entrevista. Ao chegar ele disse, em tom de lamentação: “O jogo acabou agora. A surra foi grande”.


Não, não vamos falar sobre a fatídica derrota. O assunto é outro. Josinaldo da Silva tem 31 anos, mora há três anos em Brasília, veio de longe, dos confins de Pernambuco, deixou uma vida inteira para trás: mãe, seis irmãos, um filho de 4 anos e toda a sua cultura e tradição. Ele cursa o 5º semestre de medicina na Universidade de Brasília (UnB). Quer fazer clínica geral para atender àquela gente esquecida do lugar de onde saiu e depois se especializar em anestesiologia. Josinaldo é um índio da aldeia Atikun. Será, em 2012, quando completará 35 anos, o primeiro indígena a receber o diploma de médico em toda a história daquela universidade.

Essa é a história que ele quer contar. E de como, de uma aldeia a 550km de Recife, ele rompeu barreiras e chegou a uma das universidades mais importantes do país. Mais que isso: conseguiu uma vaga no curso mais disputado da UnB. Por meio de um convênio entre a Fundação Universidade de Brasília (FUB) e a Funai, Josinaldo submeteu-se a uma espécie de vestibular diferenciado, na capital pernambucana. Concorreu a uma das duas vagas reservadas para índios de todo o território nacional na UnB (sistema de cotas). Pelo menos 400 candidatos, em todo o Brasil, participaram da seleção. Houve uma prova de português e outra de matemática, com 50 questões cada. E uma redação onde dissertou sobre o desafio do jovem indígena no ensino superior.

E lá estava Josinaldo, confiante que uma vaga seria sua. E foi. Era a redenção do menino que estudou até a 4ª série na aldeia. Da 5ª à 8ª série foi para um povoado vizinho, a 6km de onde morava. E para concluir o ensino médio, o índio atikun viajava todos os dias 50km (apenas ida) para chegar a Salgueiro, cidadezinha do sertão pernambucano, o maior lugar que até então conhecera na vida.

Dança do Toré

Após terminar o ensino médio, o rapaz virou agente de saúde da aldeia, onde vivem hoje 6 mil índios. Ali, nasceu e passou toda a vida. Ensinava o que sabia àquela gente quase esquecida. Nunca se distanciou das manifestações culturais e das tradições do seu povo. Participou desde criança da Dança do Toré. No ritual, eles acreditam que, após tomarem a jurema (bebida poderosa que limpa a alma), as divindades são incorporadas. É a crença no deus Tupã e em Tamaym (Mãe Terra). É crença dos pajés (líderes espirituais), dos caciques e de todo o povo de sua aldeia.

Essa era a vida de Josinaldo. O menino que sonhava fazer mais por sua gente. Quando soube que poderia concorrer a uma vaga na universidade, não hesitou. Foi a Recife. Fez as provas. Esperou o resultado. E viu o nome na lista dos aprovados em medicina. “Foi a melhor notícia que tive na vida”, reconhece. Dias depois, desembarcou em Brasília. Despediu-se da mãe, dos irmãos, orientou-se com pajés e caciques. Prometeu a todos que um dia voltaria. Uma nova realidade o esperava aqui.

Era abril de 2006, Josinaldo foi morar numa república de índios, na 706 Norte. No dia 18 daquele mês, entrou na UnB, seria o primeiro dia de aula. “O impacto cultural foi enorme”, diz. Pergunto se teve medo. O índio atikun admite: “Tive. Medo de ser discriminado, de não ser aceito, de não dar conta do curso, de acharem que era incapaz”. E faz uma revelação contundente: “No começo, senti muito preconceito. Menos pelo fato de ser índio. O que pesava era ser pobre”. Insisto em saber como sentiu isso. Ele responde: “Percebia nas escolhas dos grupos, nos trabalhos em equipe”. Mas hoje admite: “Três anos depois, sinto menos a separação. Acho que tô conquistando meu espaço”.

Reprovação

No primeiro e segundo semestres, Josinaldo sentiu enorme dificuldade em acompanhar algumas disciplinas. “Estudei a vida toda em escola pública do sertão. Não tive boa base”, constata. Em função disso, foi reprovado em bioquímica, biofísica experimental e biologia celular. Mas o que seria obstáculo intransponível transformou-se em luta. No semestre seguinte, resolveu cursar matérias básicas, para que lhe preparassem melhor para o que teria pela frente.

Estudou biologia e química experimental. Entendeu e dominou coisas sobre as quais nunca ouvira falar antes. Entrou no terceiro semestre confiante no caminho escolhido. Foi bem no quarto. Chegou ao quinto semestre e nunca mais foi reprovado em qualquer disciplina. “Mostrei a mim mesmo que seria capaz. Que não estava aqui porque me facilitaram a entrada. Hoje, me sinto à vontade. O diálogo é de igual pra igual.” Ninguém nunca mais segurou o índio. Nem o medo.

Josinaldo passou a ter aulas práticas no Hospital Universitário de Brasília (HUB). É acompanhado pelos professores em consulta aos pacientes da clínica médica. “Só não podemos diagnosticar”, explica. Recebe R$ 900 pelo convênio entre a FUB e a Funai. É com esse dinheiro que vive em Brasília. Come no bandejão da universidade. Passou a usar jaleco branco e estetoscópio. Fez uma foto e mandou pra sua gente. Todos passaram a chamá-lo de “doutor”. Até o pajé. “Ano passado, voltei à aldeia e o povo me perguntava se eu já podia consultar”, conta o futuro médico, aos risos.
Sentado na entrada da faculdade de medicina, Josinaldo fez um desabafo comovido: “Eu preciso ser médico pra ajudar o povo da minha aldeia. Eles precisam da tradição, dos chás, das crenças, mas também da ciência. Quero juntar tudo isso”. Em seguida, lamentou: “Os médicos brancos vão para a aldeia, mas não se acostumam. Ficam dois, três meses e vão embora. Aí, os índios ficam tempos e tempos sem nenhuma assistência”.

Sem descanso

Josinaldo estuda, em média, 10 horas por dia. Quando não está em sala de aula ou no HUB, corre para a biblioteca. Pesquisa, checa, se informa. Dissipa dúvidas. Quer comprovação. De uma coisa ele tem certeza: vai fazer clínica geral. E planeja: “Depois, quero voltar pra Pernambuco e me especializar em anestesiologia. Vou ver em Recife e Petrolina. Estando ali perto, posso cuidar da saúde do povo da aldeia”.

Enquanto a formatura não chega, o índio atikun se extasia com as oportunidades que a vida lhe ofereceu. Mas observa: “Isso tudo é fruto de esforço prévio. Se eu não acreditasse, não teria tentado”. E como nem só de estudo vive o ser humano, Josinaldo não perdeu tempo. Arrumou uma namorada no Recanto das Emas. “Ela está terminando o ensino médio. A gente se gosta”, diz. E se espanta: “Você vai escrever isso aí?”. Escrevi.

Pergunto se a convivência com o homem branco o afastará de suas raízes. Determinado, ele responde: “Tenho convicção da minha história, da minha ancestralidade. Nunca vou deixar de ser índio”. E faz um juramento: “Quero ser um bom médico. Vou procurar conversar com a pessoa e não ver ela apenas como portadora de doença. Uma vez me consultei com um médico que não olhou na minha cara. Nem meu nome perguntou”. O índio talvez não saiba, mas esses homens e mulheres que se dizem brancos e vestem jaleco agem frequentemente assim. Em todos os lugares, dos hospitais públicos aos particulares. Sentem-se quase deuses.

Otimista, o estudante de medicina crê num futuro melhor para seu povo: “Quero ver muitos índios advogados, engenheiros, médicos, professores. Basta que a gente continue lutando, resistindo, conquistando. Felicidade é poder sonhar e sentir que aquilo virou verdade”. Sábio Josinaldo, o primeiro índio que virará médico em toda a história da UnB. “Com ajuda de Tupã”, ele torce, segurando o cocar que carrega dentro da mochila. Que os deuses nos quais o índio acredita lhe sejam generosos.




10 comentários:

Anônimo disse...

Salve salve Aroldo parabens por você estar nus mostrando esta bela história de luta e dedicação do Josinlado em busca de um ideal de vida parabens ao josinaldo e a você por este bela história um grande abraço meu amigo.
Celso.

Anônimo disse...

Parabems pelas fotos ficaram legais .
Celso.

Mar e Céu disse...

Olá,Aroldo!
Gostei muito dessa matéria.
Vc sempre nos informando sobre tudo
Obrigada
Marcélia.

Ivan Daniel disse...

Bela história!

Mulheres Neura disse...

A história é de superação mesmo... mas (tudo sempre tem um mas) vamos nos ater aos fatos:

Ele se sentiu discriminado por não ter dinheiro, sabemos que na UnB e, mas precisamente na Faculdade de Medicina, não ter dinheiro é considerado uma doença transmissível e fatal, ninguém te olha, ninguém te vê, ninguém te escuta, ninguém vê sua existência... até mesmo alguns professores chegam a não querer você nas turmas alegando que você "não tem condições de participar delas" e não estou falando do conhecimento, estou falando da grana pra os jantares, festas e almoços e dos carros que todos possuem e você não.

UNB é antro de preconceito em alguns centros. Mas como ainda falta alguns semestres pra ele terminar o curso, vamos ver se vai acontecer mesmo, quando ele estiver com o diploma na mão me avisa, porque aí faço questão de dar os parabéns.

Afinal, transpor as barreiras do preconceito, da burocracia, da falta de dinheiro, de ser pobre, de não ter as mesmas condições do colega sentado na mesa do lado, acredite amigo, são condições suficientes para impedirem voce de conquistar esse diploma.

Falo com conhecimento de causa, vivi isso!

beijos

Patifa

Harold disse...

Celso!
Concordo plenamente. A história de Josinaldo é digna de aplauso e respeito.
Abraços!

Harold disse...

Marcélia!
Obrigado pela visita e pelo comentário.
Beijos e unidade!

Harold disse...

Oi Daniel!
A história de Josinaldo é bela mesmo. Acho que muitos brasileiros tiveram e tem que ralar como ele.
Valeu a visita.
Saudações enzísticas!!!

Harold disse...

Rosa!
Seu comentário é super-pertinente. Não apenas a UnB mas muitas importantes universidades (pelo menos em alguns centros e/ou departamentos)apresentam postura discriminatória.
Se a barra já é pesada apra as pessoas que se encaixam no perfil cutado por você, imagine apra o Josinaldo que, além de estar no perfil, também é índio. Não é fácil não.
Por conhecê-lo, acredito na disposição dele para não desistir da luta e conseguir o almejado diploma. O cara tem intelig~encia e coragem.
Agradeço sua visita ao blog. Venha sempre que a casa é sua.
Beijos e vida!!!!

Harold disse...

Oi Marcélia!
Valeu sua visita e comentário.
Beijos!!!